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Geriatria e a Avaliação Geriátrica Ampla: O que saber para cuidar do idoso

O cuidado com a saúde da população idosa exige um olhar especializado que compreenda as particularidades e as complexidades do envelhecimento. Na prática médica, é fundamental diferenciar as alterações fisiológicas naturais dessa fase das condições patológicas adquiridas ao longo da vida. 

Para oferecer um atendimento de qualidade e humanizado, o exame clínico convencional muitas vezes não é suficiente. É nesse cenário que a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) se destaca como um processo multidimensional indispensável. 

Muito além de diagnosticar doenças, o objetivo central dessa abordagem é avaliar as capacidades físicas, funcionais, mentais, sociais e ambientais do paciente, visando preservar sua autonomia e guiar um plano terapêutico individualizado. 

A seguir, detalhamos os principais conceitos, as grandes síndromes geriátricas e as ferramentas necessárias para o cuidado integral do idoso. 

O processo de envelhecimento e a geriatria

A geriatria é a especialidade médica dedicada ao cuidado da saúde de pessoas idosas, que aborda as particularidades do envelhecimento e a complexidade de suas doenças. 

O envelhecimento é um processo heterogêneo que reduz a massa celular e a capacidade funcional do paciente, sobrecarregando seus mecanismos homeostáticos. Para o cuidado clínico, é fundamental distinguir dois conceitos:

  • Senescência: É o processo de envelhecimento normal (primário), onde há uma menor capacidade de adaptação ao estresse.
  • Senilidade: É o envelhecimento secundário, causado por processos patológicos e doenças adquiridas ao longo da vida.
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Fisiologicamente, o corpo do idoso sofre várias alterações naturais, como o aumento da rigidez miocárdica e vascular (cardiovascular), a diminuição da elasticidade e da capacidade respiratória (pulmonar), a redução na conservação de sódio (renal) e alterações nos receptores de insulina (endócrino).

Particularidades da anamnese e exame físico

Atender um idoso exige adaptações. A anamnese requer mais tempo, pois o paciente costuma ter mais queixas, múltiplas comorbidades e, em alguns casos, déficits cognitivos ou sensoriais

A presença de um cuidador é frequentemente necessária, dividindo a entrevista em dois momentos: com o paciente e com o cuidador. No exame físico, é comum encontrar uma pele seca com redução de elasticidade, enrijecimento arterial (causando “pseudo-hipertensão”), e alterações na ausculta cardíaca (presença de B4) e pulmonar (estertores crepitantes basais).

A importância da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA)

Para complementar o exame clínico convencional, utiliza-se a AGA, um processo multidimensional criado para avaliar deficiências físicas, funcionais, mentais, sociais e ambientais no idoso

O objetivo principal não é apenas diagnosticar doenças, mas preservar a autonomia e a funcionalidade do paciente, além de estimar riscos nutricionais e expectativas de vida. Sua aplicação reduz a morbimortalidade e os custos hospitalares, além de aumentar a independência no cenário domiciliar.

A AGA pode dividir essa avaliação nos seguintes pilares:

1. Avaliação da Funcionalidade:

  • Atividades Básicas de Vida Diária (ABVD): Avaliadas pela Escala de Katz, que pontua a independência do paciente em 6 áreas: banho, vestir-se, higiene pessoal, transferência, continência e alimentação.
  • Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD): Avaliam a adaptação à vida comunitária. Utiliza-se a Escala de Lawton (como uso de telefone, compras, preparo de refeições e finanças) e a Escala de Pfeffer, que é um questionário aplicado diretamente ao cuidador.

2. Avaliação Cognitiva e de Humor:

  • Cognição: O rastreio mais utilizado é o Mini Exame do Estado Mental (MEEM), que avalia orientação, memória, atenção e linguagem. Para idosos de alta escolaridade ou com declínio leve, recomenda-se o MoCA. O Teste do Relógio (TDR) também é usado para avaliar funções visuoespaciais e executivas.
  • Humor: Utiliza-se a Escala de Depressão Geriátrica (GDS / Yesavage), contendo 15 perguntas para rastrear quadros de depressão, devendo sua confirmação seguir critérios clínicos formais.

3. Estado Nutricional: A Mini Avaliação Nutricional (MAN) é o padrão-ouro no rastreio do estado nutricional. Cabe ressaltar que os parâmetros de Índice de Massa Corporal (IMC) para idosos são diferentes da população geral:

  • Baixo Peso: IMC ≤ 22 kg/m².
  • Eutrofia: IMC de 22 a 27 kg/m².
  • Obesidade: IMC ≥ 27 kg/m².
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As grandes síndromes geriátricas 

Condições multifatoriais e muito comuns nesta população são agrupadas nos chamados “5 Is”: Instabilidade postural (e quedas), Imobilidade, Incontinência, Iatrogenia e Incapacidade cognitiva. A AGA aborda ativamente essas síndromes:

  • Quedas e Instabilidade: Exigem investigação do ambiente domiciliar e de medicações.
  • Incontinência: É preciso diferenciar as causas transitórias (como infecções e medicações) das crônicas.
  • Iatrogenia (Polifarmácia): O rastreio farmacológico exige ajuste de doses renais e aplicação dos Critérios de Beers para evitar medicamentos inapropriados que causam reações adversas.
  • A AGA ainda engloba rastreio de Déficits Sensoriais (audição pelo Teste do Sussurro e visão pela Tabela de Snellen), além de avaliar a qualidade do sono e a imunização.

Diretrizes de Rastreio em Geriatria 

Por fim, é indicado que qualquer exame de rastreio sintomático no idoso deve considerar se a expectativa de vida é maior que 10 anos. Alguns dos rastreios incluem:

  • Câncer Colorretal: Colonoscopia ou pesquisa de sangue oculto, recomendados geralmente até 75 ou 85 anos.
  • Câncer de Mama: Mamografia bianual para mulheres entre 40/50 até 74 anos.
  • Osteoporose: Densitometria Óssea para mulheres a partir dos 65 anos e homens a partir dos 70 anos (ou antes, caso haja fatores de risco).
  • Câncer de Colo Uterino: Exame Citopatológico ou DNA-HPV em mulheres com vida sexual ativa até os 64 anos.

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Autor e Revisor

  • Kiara Adelino

    Estudante do 6° semestre de Medicina. Gosto bastante de aprender coisas novas, principalmente na área de Neurologia e Anatomia humana.

  • Médico - Universidade Estadual de Maringá (UEM) | CRM: 211408
    Clínica Médica - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP (HCFMRP-USP) | RQE: 124368
    Reumatologia - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) | RQE: 124369
    Preceptoria de Reumatologia 2024-25 (HC-FMUSP)
    Especialização em Curso de Formação de Preceptores pelo Centro de Desenvolvimento de Educação Médica (CEDEM-FMUSP)

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