InícioOftalmologiaGlaucoma: Acometimento Neurológico que Afeta a Visão 

Glaucoma: Acometimento Neurológico que Afeta a Visão 

O glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no mundo, exigindo diagnóstico precoce e manejo rigoroso da comunidade médica. 

O que é glaucoma e qual sua base fisiopatológica?

A patogênese do glaucoma decorre da morte apoptótica das células ganglionares da retina (CGR) e da perda dos seus axônios, que compõem o nervo óptico. Acredita-se que a agressão primária ocorra na lâmina crivosa da esclera, onde os axônios sofrem deformação mecânica e estresse metabólico.

Dois mecanismos fisiopatológicos principais explicam a lesão axonal: a teoria mecânica, na qual a pressão intraocular (PIO) elevada comprime diretamente as lâminas axonais e bloqueia o fluxo axoplasmático retrógrado e anterógrado de fatores neurotróficos; e a teoria vascular, associada à instabilidade hemodinâmica, desregulação vascular e isquemia crônica da cabeça do nervo óptico.

Retinografia colorida de olho direito e olho esquerdo evidenciando escavação papilar de 0-9-0,9 com notch inferior bilateral. Fonte: https://www.scielo.br/j/rbof/a/TFZhqcHX6h8RGMHWzswWbJr/?format=html&lang=pt 

Relação entre glaucoma e pressão intraocular

Embora a PIO elevada seja o principal fator de risco modificável e o único alvo terapêutico com eficácia clínica comprovada, o glaucoma não é definido numericamente por um valor de pressão. A faixa populacional estatística considerada “normal” situa-se entre 10 e 21 mmHg, mas a suscetibilidade individual é altamente variável.

Existem pacientes com PIO sistematicamente superior a 21 mmHg sem evidência de dano estrutural ou funcional ao nervo óptico, quadro classificado como hipertensão ocular. Em contrapartida, até um terço dos casos de glaucoma de ângulo aberto manifesta-se com pressões intraoculares inferiores a 21 mmHg, constituindo o glaucoma de pressão normal (GPN), no qual fatores vasculares e biomecânicos da lâmina crivosa desempenham papel preponderante.

Escavação avançada com atrofia peripapilar, em glaucoma de pressão normal. Fonte: https://doi.org/10.1590/S0004-27492005000400028 

Fatores de risco para a neuropatia glaucomatosa

O desenvolvimento e a taxa de progressão do dano ocular sofrem influência de múltiplos fatores clínicos e genéticos:

  • Pressão intraocular basal elevada: Fator isolado mais expressivo para o início e avanço da doença;
  • Idade avançada: Risco significativamente maior a partir dos 40 anos, com aumento exponencial após os 60 anos;
  • História familiar de primeiro grau: Risco relativo cerca de 3 a 9 vezes maior em indivíduos com parentes de primeiro grau acometidos;
  • Ascendência racial: Maior prevalência, gravidade e progressão precoce em indivíduos negros (especialmente para o glaucoma de ângulo aberto); populações do leste asiático apresentam maior proporção de glaucoma de ângulo fechado;
  • Paquimetria corneana central reduzida: Córneas centrais finas (< 520m) subestimam a PIO real pela tonometria de aplanação e constituem fator de risco independente para progressão;
  • Fatores vasculares e comorbidades: Vasoespasmo sistêmico (enxaqueca, fenômeno de Raynaud), hipotensão arterial noturna e miopia axial elevada (que gera maior fragilidade na esclera peripapilar).
Fenômeno de Raynaud que pode precipitar neuropatia glaucomatosa. Fonte: https://www.mdsaude.com/reumatologia/fenomeno-raynaud/ 

Principais tipos de glaucoma

A classificação baseia-se na anatomia do seio camerular (visualizado por gonioscopia) e na presença ou ausência de causas subjacentes:

Tipo de GlaucomaMecanismo de BloqueioApresentação Clínica Típica
Glaucoma Primário de Ângulo Aberto (GPAA)Aumento da resistência ao escoamento no trabeculadoSilencioso, crônico, bilateral e insidioso; assintomático até fases avançadas
Glaucoma Primário de Ângulo Fechado (GPAF)Bloqueio pupilar com aposição da íris sobre o trabeculadoPode ser assintomático crônico ou apresentar-se como crise aguda súbita
Glaucoma Secundário (ex.: Pigmentar, Pseudoesfoliativo)Bloqueio mecânico por dispersão de pigmento ou material fibrilarDepende da etiologia; associado a picos de PIO e assimetria ocular acentuada
Glaucoma Congênito PrimárioDisgenesia da malha trabeculada (membrana de Barkan)Epífora, fotofobia, blefarospasmo e buftalmia (aumento do globo ocular no lactente)

Glaucoma causa sintomas?

O glaucoma primário de ângulo aberto é notoriamente assintomático em suas fases iniciais e intermediárias. Como a perda campimétrica afeta primariamente a periferia nasal e o campo intermediário, sem acometer a fóvea de imediato, o paciente preserva acuidade visual de 20/20 central por longo período e não percebe as perdas paracentrais graças à sobreposição binocular e à compensação neural.

A grande exceção clínica é a crise de fechamento angular agudo, uma emergência oftalmológica. Nesses casos, o fechamento pupilar abrupto eleva a PIO a níveis superiores a 50 ou 60 mmHg, manifestando-se por dor ocular lancinante associada a cefaleia homolateral intensa, náuseas, vômitos, visão turva, percepção de halos coloridos em torno de fontes luminosas, hiperemia conjuntival ciliar e pupila em médio-midríase fixa.

Hiperemia conjuntival à direita, com evolução bilateral. Fonte: https://www.researchgate.net/figure/Figura-1-Evolucao-da-hiperemia-conjuntival-a-direita-e-depois-bilateral-com-posterior_fig1_355260498 

Investigação diagnóstica e propedêutica armada

O diagnóstico do glaucoma requer correlação estrutural e funcional por meio de propedêutica multimodal:

  • Tonometria de aplanação de Goldmann: Considerada o padrão-ouro de referência para mensuração da PIO, devendo ser correlacionada com a paquimetria ultrassônica;
  • Gonioscopia: Avaliação direta do seio camerular com lentes de espelhos (como Posner ou Zeiss) para classificar o ângulo em aberto, estreito ou fechado (classificação de Shaffer) e identificar goniossinequias, neovasos ou pigmentação patológica;
  • Biomicroscopia do disco óptico (fundo de olho): Avalia o aumento do diâmetro da escavação, perda do anel neurorretiniano com desrespeito à regra ISNT (Inferior > Superior > Nasal > Temporal), hemorragias de disco (hemorragias de Drance), assimetria de escavação entre os olhos (> 0,2) e afinamento da camada de fibras nervosas peripapilar;
  • Perimetria computadorizada estática (campo visual): Avalia o prejuízo funcional. Os defeitos característicos incluem escotomas paracentrais, degrau nasal de Ronne e escotoma arqueado de Bjerrum;
  • Tomografia de Coerência Óptica (OCT): Avaliação quantitativa da camada de fibras nervosas da retina (CFNR) e do complexo de células ganglionares maculares, permitindo a detecção de dano estrutural pré-perimétrico antes que qualquer defeito apareça no campo visual.
Tomografia de coerência óptica. Fonte: https://iobh.com.br/exames-oftalmologicos/tomografia-de-coerencia-optica-oct/ 

Abordagem terapêutica: controle e preservação visual

O glaucoma não tem cura, mas possui tratamento eficaz para frear a progressão da neuropatia e preservar a qualidade de vida. O objetivo de qualquer conduta terapêutica é estabelecer e atingir uma pressão intraocular alvo, calculada individualmente com base no estágio basal de dano estrutural, na expectativa de vida e na PIO em que ocorreu a lesão.

Tratamento farmacológico

A terapia clínica de primeira linha é tópica, podendo atuar na redução da produção de humor aquoso ou no aumento da sua drenagem:

  • Análogos de prostaglandinas (ex.: latanoprosta, travoprosta): Fármacos de primeira escolha; aumentam a drenagem úveo-escleral não convencional, promovendo redução da PIO em até 30% a 35% com posologia de dose única noturna;
  • Betabloqueadores tópicos (ex.: timolol 0,5%): Reduzem a síntese de humor aquoso pelo epitélio ciliar; demandam cautela quanto a contraindicações sistêmicas (asma, DPOC e bradiarritmias graves);
  • Alfa-2 agonistas adrenérgicos (ex.: brimonidina) e Inibidores da anidrase carbônica (ex.: dorzolamida): Agem reduzindo a produção e facilitando o escoamento, frequentemente associados quando a monoterapia não atinge a PIO alvo.

Procedimentos a laser e cirurgia incisional

Quando o tratamento medicamentoso falha, há intolerância a colírios ou o diagnóstico é de ângulo estreito/fechado, procedimentos intervencionistas são indicados:

  • Trabeculoplastia Seletiva a Laser (SLT): Estimula biologicamente a malha trabecular para otimizar o fluxo convencional, constituindo alternativa consagrada como primeira linha no GPAA;
  • Iridotomia periférica a laser (YAG laser): Conduta padrão para reversão de bloqueio pupilar no glaucoma de ângulo fechado;
  • Cirurgias filtrantes (Trabeculectomia – TREC): Criação cirúrgica de uma fístula para drenagem subconjuntival protegida com formação de bolha filtrante, associada ao uso de antimetabólitos (mitomicina C);
  • Implantes de dispositivos de drenagem (tubos) e MIGS (Cirurgias Glaucomatosas Minimamente Invasivas): Indicados em glaucomas refratários, secundários ou associados à cirurgia de catarata em estágios leves a moderados.
Implante de cirurgia minimamente invasiva responsável por manter a pressão ocular em nível normal. Fonte: https://www.centrodecirurgiaocular.com.br/cirurgia-de-glaucoma/ 

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Perguntas frequentes sobre glaucoma

O glaucoma tem cura definitiva?

Não. O glaucoma é uma neuropatia crônica sem cura, mas o controle contínuo da pressão intraocular previne a progressão e a perda visual.

Toda pessoa com pressão ocular alta terá glaucoma?

Não. Apenas indivíduos suscetíveis desenvolvem a neuropatia glaucomatosa; pacientes com hipertensão ocular sem lesão do nervo óptico exigem apenas monitoramento clínico regular.

O glaucoma sempre afeta os dois olhos?

Sim, na maioria das apresentações primárias o acometimento é bilateral, contudo costuma ser marcadamente assimétrico em gravidade e taxa de progressão.

Quem tem glaucoma pode perder totalmente a visão?

Sim. Sem diagnóstico precoce e redução consistente da pressão intraocular, a perda contínua de axônios leva à cegueira tubular irreversível e amaurose.

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Autor

  • Laura Fernandes - Jornalista

    Laura Fernandes é jornalista formada pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), com experiência na produção de conteúdo jornalístico sobre saúde e educação médica.

    Na MedCof, atua na produção e atualização de conteúdos relacionados à residência médica, especialidades e carreira médica, acompanhando informações relevantes para estudantes e médicos em preparação para processos seletivos.

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