InícioAtualizaçõesEstadiamento FIGO 2026 da neoplasia trofoblástica gestacional: o que mudou?

Estadiamento FIGO 2026 da neoplasia trofoblástica gestacional: o que mudou?

Veja as principais mudanças do estadiamento FIGO 2026 para neoplasia trofoblástica gestacional: critérios diagnósticos, linfonodos, grupo de risco ultra-alto e novo sistema para TTSP/TTE

A Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) publicou a atualização do estadiamento e da classificação de risco da neoplasia trofoblástica gestacional (NTG). O sistema anterior estava em uso desde 2000, e a nova versão traz critérios diagnósticos mais claros, orientações de imagem, a inclusão de linfonodos no estadiamento, um novo grupo de risco ultra-alto e um sistema próprio para o tumor trofoblástico do sítio placentário (TTSP) e o tumor trofoblástico epitelioide (TTE).

O artigo, assinado por Ngan e colaboradores, foi publicado on-line em 20 de julho de 2026 no International Journal of Gynecology & Obstetrics (DOI: 10.1002/ijgo.71229). Se você estuda Ginecologia e Obstetrícia, estas são as mudanças que vale acompanhar.

Por que a FIGO revisou o estadiamento da NTG?

  • A NTG é uma doença incomum e potencialmente letal, mas com alta taxa de cura. Parte desse sucesso depende de um estadiamento adequado. O objetivo do estadiamento é separar as pacientes que devem responder a protocolos de quimioterapia menos intensivos daquelas que precisam de tratamento mais agressivo para alcançar a remissão.
  • O artigo lembra que cerca de 10% a 20% das pacientes com mola hidatiforme completa evoluem com hCG persistentemente elevado ou em ascensão após o esvaziamento uterino e recebem o diagnóstico de NTG.
  • Ao longo dos anos, o comitê recebeu sugestões e relatos de interpretações equivocadas do sistema de 2000. Para responder a isso, o Comitê de Câncer Feminino da FIGO criou um subcomitê para a revisão, presidido por Hextan Y. S. Ngan. O grupo reuniu ginecologistas oncológicos, oncologistas clínicos, ginecologistas gerais, patologistas e radiologistas de diferentes continentes, entre eles o brasileiro Antonio Braga. A proposta passou por consulta a diversas sociedades internacionais, e cerca de dois terços delas responderam. A versão final foi adotada no Congresso da FIGO de 2025, na Cidade do Cabo, na África do Sul.
  • Algumas lesões não neoplásicas, como o nódulo de sítio placentário atípico, não fazem parte do estadiamento. Elas continuam sendo diagnósticos diferenciais importantes. O artigo registra que 10% a 15% desses nódulos atípicos podem coexistir com TTSP/TTE ou progredir para eles.

Quais são os critérios diagnósticos de NTG em 2026?

A revisão definiu com mais precisão o que é elevação e o que é platô de hCG. Também ampliou os critérios histológicos:

CritérioDefinição FIGO 2026
Platô de hCGVariação menor que 10% (para cima ou para baixo) em quatro dosagens ao longo de pelo menos 3 semanas (dias 1, 7, 14 e 21)
Elevação de hCGAumento maior que 10% em três dosagens semanais consecutivas ao longo de pelo menos 2 semanas (dias 1, 7 e 14)
HistopatologiaDiagnóstico histopatológico de coriocarcinoma gestacional, TTSP ou TTE

O critério de “hCG elevado por 6 meses ou mais” foi retirado.

Quais exames de imagem são recomendados?

A escolha do método depende do risco e da disponibilidade. Como a NTG pode dobrar de volume em 24 a 48 horas em algumas pacientes, a investigação deve ser feita o mais perto possível do início da quimioterapia ou da cirurgia.

Doença de baixo risco

Na suspeita de baixo risco, a recomendação é radiografia de tórax e ultrassonografia pélvica com Doppler ou ressonância magnética (RM). Veja os pontos principais:

  • Tamanho tumoral: o ultrassom com Doppler costuma ser suficiente para medir o maior diâmetro do tumor no útero.
  • Volume uterino: o volume ou o tamanho do útero não entra no escore FIGO.
  • Coágulos: podem confundir a avaliação do tumor.
  • TC de pelve: não é recomendada para medir o tumor, porque tem baixo contraste de partes moles e pode não diferenciar o tumor de coágulos ou da parede uterina.
  • RM: tem a maior acurácia, mas geralmente não é necessária na NTG pós-molar de baixo risco.
  • TC de tórax: é indicada quando há metástase pulmonar identificada ou suspeita na radiografia. Só entram no escore lesões a partir de 1 cm.
  • Rastreio adicional: se houver metástase pulmonar de 1 cm ou mais, recomenda-se RM de crânio junto com TC ou RM de abdome.
  • Micrometástases pulmonares: não demonstraram impacto no desfecho e não devem ser usadas para estadiamento nem escore.
  • PET-CT: não deve ser feito de rotina, mas pode ser considerado em pacientes de alto risco.
  • hCG muito alto: com valores acima de 400.000 mUI/mL, o risco de metástases em outros sítios aumenta, mesmo sem metástase na radiografia de tórax. Nesses casos, imagem adicional pode ser considerada.

Doença de alto risco e coriocarcinoma

Nesses casos, a investigação é mais extensa. Inclui RM com contraste de crânio e pelve e TC de tórax e abdome.

  • Fígado: o ultrassom pode ter papel em locais com poucos recursos, mas é insuficiente para avaliar metástases hepáticas no estadiamento. A TC com contraste é a primeira escolha. A RM, de preferência com contraste venoso, fica reservada para casos em que o contraste da TC é contraindicado.
  • Crânio: a RM é o método preferido. A TC de crânio fica para situações agudas em que a RM não está disponível de imediato.

TTSP e TTE

A RM pélvica com contraste deve ser obrigatória para avaliar o envolvimento miometrial e parametrial, já que esses tumores tendem mais à invasão local do que à disseminação. Ultrassom e TC são insuficientes para o estadiamento local.

Como ficou o estadiamento anatômico FIGO 2026?

Os estádios I a IV foram mantidos, com alguns esclarecimentos:

EstádioDescrição
ITumor restrito ao corpo uterino e ao colo do útero
IIExtensão para anexos, vagina ou ligamento largo, limitada às estruturas genitais
IIIExtensão para os pulmões, com ou sem envolvimento do trato genital; metástase linfonodal abaixo do diafragma
IVTodos os outros sítios metastáticos, incluindo metástase linfonodal acima do diafragma

As novidades são:

  • O colo do útero passou a constar no estádio I.
  • O ligamento largo passou a constar no estádio II.
  • Linfonodos abaixo do diafragma passaram para o estádio III.
  • Linfonodos acima do diafragma passaram para o estádio IV.

Por que os linfonodos entraram no estadiamento?

Exames de imagem são feitos com frequência, principalmente no alto risco, e muitas vezes mostram linfonodos acometidos. Os dados ainda são controversos. Alguns estudos sugerem pior desfecho, mas o impacto na sobrevida não está claro. Por isso, o comitê decidiu coletar mais dados sobre o tema.

Veja as regras para classificar os linfonodos:

  • Tamanho: considera-se metástase linfonodal o linfonodo com eixo curto de 10 mm ou mais na imagem.
  • Notação: assim como no câncer de colo do útero, acrescenta-se “r” (radiologia) ou “p” (patologia) para indicar a base da classificação. Por exemplo, um linfonodo abaixo do diafragma identificado na imagem é classificado como estádio III LN r.
  • Registro: a modalidade de imagem ou a técnica patológica usada deve sempre ser documentada.
  • Estadiamento cirúrgico: o estadiamento cirúrgico dos linfonodos não é recomendado. Não há dados suficientes de que ele mude o tratamento ou melhore a sobrevida, e a NTG se dissemina principalmente por via hematogênica.

O que mudou no escore de risco OMS modificado pela FIGO?

O escore continua com sete fatores prognósticos, e o peso de cada um não mudou. A principal alteração foi a retirada do fator “quimioterapia prévia”. Como não se recomenda reestadiar em casos de resistência, recorrência ou recidiva, e como a quimioterapia profilática não conta como quimioterapia prévia, esse fator deixou de ser aplicável.

Fator prognóstico0124
Idade (anos)< 40≥ 40––
Gestação antecedenteMola hidatiformeAborto/perda gestacional/ectópicaGestação a termo–
Intervalo da gestação índice (meses)< 44–67–12> 12
hCG pré-tratamento (mUI/mL)< 1.0001.000 a < 10.00010.000 a < 100.000≥ 100.000
Maior tamanho tumoral, no útero ou em sítio metastático (cm)< 33–5> 5–
Sítio das metástasesPulmão, vaginaBaço, rimTrato gastrointestinalCérebro, fígado
Número de metástases–1–45–8> 8

Notas explicativas que você precisa conhecer

  • Folha de escore: recomenda-se usar uma folha em que os fatores são circulados, o total é calculado e o documento fica arquivado no prontuário.
  • Idade: é a idade da paciente no momento do diagnóstico de NTG.
  • Gestação antecedente:
    • Se houve mais de uma gestação, considera-se índice a mais recente, incluindo a atual.
    • Quando houver recursos, a genotipagem por STR (short tandem repeat) pode confirmar a gestação índice.
    • “Aborto/perda gestacional” inclui perdas espontâneas e induzidas, além de gestações ectópicas tubárias, ovarianas ou em outros sítios fora do útero.
  • hCG: vale o valor medido no diagnóstico de NTG, antes de qualquer tratamento cirúrgico ou clínico. O hCG dosado antes do esvaziamento de uma mola não é NTG e não deve ser usado como referência.
  • Tamanho tumoral: inclui lesões uterinas e metastáticas. O que se mede é o tumor, não o útero. Pode ser avaliado por RM, ultrassom com Doppler ou patologia. A TC não deve ser usada para isso.
  • Sítio das metástases:
    • O útero não é considerado sítio metastático.
    • O coriocarcinoma ectópico deve ser considerado sítio primário.
    • A lista de sítios não foi atualizada. Metástases em órgãos fora da lista devem ser consideradas doença de alto risco.
  • Número de metástases:
    • O tumor uterino não entra na contagem.
    • Metástases vaginais são avaliadas clinicamente e por imagem.
    • Metástases pulmonares de 1 cm ou mais podem ser contadas por TC ou radiografia de tórax.
  • TTSP/TTE: o escore não se aplica ao manejo dessas duas entidades.

Como fica a classificação de risco em 2026?

EscoreGrupo de risco
0–6Baixo risco
7–12Alto risco
≥ 13Risco ultra-alto (novo)

Baixo risco (0 a 6)

Escores 5 e 6 estão associados a maiores taxas de quimiorresistência. Mesmo assim, o comitê não recomenda, por enquanto, criar um grupo intermediário nem mudar o ponto de corte.

Pacientes com escore 5 ou 6 que tenham fatores de risco adicionais podem se beneficiar de quimioterapia com múltiplos agentes como primeira linha. Esses fatores são:

  1. NTG pós-molar sem metástase, com hCG pré-tratamento de 410.000 UI/L ou mais.
  2. NTG pós-molar com metástase, ou coriocarcinoma sem metástase, com hCG pré-tratamento de 150.000 UI/L ou mais.
  3. Coriocarcinoma com metástase, com qualquer nível elevado de hCG.

Alto risco (7 a 12)

A documentação continua no formato estádio:escore.

Risco ultra-alto (13 ou mais)

Essa é uma categoria nova. As pacientes nesse grupo têm pior prognóstico, e a quimioterapia de indução mostrou reduzir a mortalidade.

E o coriocarcinoma gestacional?

O coriocarcinoma não precisa de um sistema separado. Ele é avaliado pelo estadiamento e pelo escore da NTG.

A investigação por imagem, porém, deve ser mais extensa desde o início. Não basta ultrassom pélvico com Doppler e radiografia de tórax. Devem ser feitas TC com contraste de tórax e abdome e RM com contraste de crânio e pelve, quando disponíveis.

Quando indicada e disponível, a genotipagem por STR ajuda a diferenciar o coriocarcinoma gestacional do não gestacional e a identificar a gestação índice. Os patologistas devem seguir o conjunto de dados de laudo recomendado pelo ICCR (International Collaboration on Cancer Reporting).

Como é o novo estadiamento de TTSP e TTE?

Essa é uma das maiores novidades de 2026. O TTSP e o TTE se comportam de forma diferente das outras formas de NTG. Dois fatores prognósticos se destacam: o estádio IV e o intervalo de 48 meses ou mais desde a gestação antecedente.

Por isso, esses tumores usam o mesmo estadiamento anatômico da NTG, sem o escore da OMS. Nos estádios I a III, acrescenta-se o fator prognóstico:

  • Bom prognóstico (GP): intervalo menor que 48 meses desde a gestação anterior.
  • Mau prognóstico (PP): intervalo de 48 meses ou mais.
  • Estádio IV: todos os casos são considerados de mau prognóstico.

A notação fica estádio:GP ou estádio:PP. O tipo de gestação também deve ser informado.

Sobre a gestação índice e os linfonodos:

  • Gestação índice: quando indicada e disponível, a genotipagem por STR ajuda a identificá-la. Sem genotipagem e com mais de uma gestação anterior, considera-se índice a mais recente, incluindo a atual.
  • Linfonodos: os dados são limitados, mas o acometimento linfonodal está associado a pior desfecho no TTSP/TTE.
    • Linfonodos abaixo do diafragma têm prognóstico melhor que os acima dele. Por isso, são classificados como estádio III e IV, respectivamente, como em outros cânceres ginecológicos.
    • Valem a mesma notação “r”/”p” e o limite de 10 mm no eixo curto.
    • O estadiamento cirúrgico dos linfonodos não é recomendado.

Resumo: o que você precisa levar da FIGO 2026

  • Diagnóstico: critérios mais claros para platô e elevação de hCG. O critério de 6 meses foi retirado, e TTSP e TTE entraram no critério histológico.
  • Imagem: orientações detalhadas por grupo de risco e por tipo tumoral.
  • Estadiamento anatômico: colo do útero no estádio I, ligamento largo no II e linfonodos no III (abaixo do diafragma) e no IV (acima do diafragma).
  • Escore de risco: sete fatores mantidos, com a retirada da quimioterapia prévia.
  • Grupos de risco: novo grupo de risco ultra-alto, com escore de 13 ou mais.
  • TTSP/TTE: sistema próprio, com estadiamento anatômico mais o intervalo de 48 meses, sem escore.

Os autores reforçam que, por ser uma neoplasia incomum, a NTG depende de critérios e interpretações padronizados. Só assim é possível gerar dados mais robustos e comparar resultados entre centros.

Perguntas frequentes

Quando o estadiamento FIGO da NTG foi atualizado?

A proposta foi adotada no Congresso da FIGO de 2025 e publicada on-line em 20 de julho de 2026. O sistema anterior era de 2000.

O coriocarcinoma tem estadiamento próprio?

Não. Ele segue o estadiamento e o escore da NTG, mas exige investigação por imagem mais extensa desde o início.

O escore de risco da OMS vale para TTSP e TTE?

Não. Esses tumores usam o estadiamento anatômico mais o fator prognóstico do intervalo desde a gestação antecedente (menor que 48 meses ou de 48 meses ou mais).

Qual escore define o risco ultra-alto?

Escore de 13 ou mais.

O estadiamento cirúrgico dos linfonodos é recomendado?

Não. Os dados atuais não mostram benefício no tratamento nem na sobrevida.

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Autor

  • Médica pela Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein | CRM: 258738
    Ginecologia e Obstetrícia pelo Einstein Hospital Israelita

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