
As emergências oncológicas são condições críticas que surgem da evolução tumoral, da compressão de estruturas vitais ou da toxicidade do tratamento. Todas exigem intervenção imediata para evitar morbimortalidade significativa.
Dominar essas seis síndromes é essencial na sua rotina clínica — e são tema recorrente nas provas de residência. Neste guia, você revisa fisiopatologia, diagnóstico e conduta de forma direta e organizada.
O que são emergências oncológicas?
Emergências oncológicas são situações agudas em que o câncer, sua progressão ou seu tratamento colocam a vida do paciente em risco imediato. O reconhecimento rápido muda o desfecho.
Para estudar com clareza, vale agrupá-las em três eixos: mecânicas/estruturais (obstrução intestinal maligna, síndrome da veia cava superior e compressão medular), metabólicas (hipercalcemia e lise tumoral) e infecciosas (neutropenia febril).
Obstrução intestinal maligna (OIM)
A obstrução intestinal maligna é frequente na carcinomatose peritoneal, ocorrendo em 20-50% das neoplasias ginecológicas (ovário) e em 10-28% das gastrointestinais (colorretal e gástrico).
Fisiopatologia e classificação da OIM
A obstrução pode ter três origens:
- Mecânica extrínseca: compressão externa, aderências ou fibrose actínica pós-radioterapia.
- Mecânica intrínseca: massa intraluminal ou linite plástica.
- Funcional: infiltração do mesentério ou de plexos nervosos (neuropatia paraneoplásica), íleo paralítico ou efeito medicamentoso (opioides e anticolinérgicos).
Propedêutica: clínica e imagem
A tríade clássica reúne dor em cólica, distensão e vômitos. À ausculta, a ausência de ruídos hidroaéreos indica oclusão total, enquanto sons metálicos sugerem suboclusão.
Na imagem, a tomografia de abdome com contraste é o padrão-ouro, com sensibilidade de 93%. Ela diferencia obstrução mecânica de carcinomatose difusa e define o ponto de obstrução. O RX simples tem baixa sensibilidade (66%).
Protocolo de manejo clínico
O tratamento cirúrgico é exceção. O foco está no conforto — inicialmente com sonda nasogástrica (SNG) — e na farmacoterapia otimizada:
- Corticosteroides (dexametasona 6-16 mg/dia): reduzem o edema peritumoral (“desobstrução química”) e têm efeito antiemético central.
- Antissecreção (octreotida): análogo da somatostatina que inibe VIP e Substância P, reduzindo drasticamente as secreções gastrointestinais (efeito “secativo”). É fundamental quando a SNG apresenta alto débito ou em casos refratários após 3-5 dias.
- Antieméticos e analgesia: haloperidol é a 1ª linha para náusea na OIM, e os anticolinérgicos (escopolamina) reduzem cólicas e secreções.
Atenção: evite pró-cinéticos (metoclopramida) na suspeita de obstrução total, pelo risco de perfuração e piora da cólica.
Síndrome da veia cava superior (SVCS)
A síndrome da veia cava superior é a obstrução do fluxo venoso da cava superior, geralmente causada por câncer de pulmão (não pequenas células > pequenas células) ou linfoma não-Hodgkin.
Quadro clínico e o sinal de Pemberton
O quadro é marcado por edema facial e cervical, pletora, estase jugular e circulação colateral torácica. A intensidade depende da velocidade de instalação e do grau de obstrução.
O sinal de Pemberton ajuda no reconhecimento à beira-leito: ao solicitar que o paciente eleve os braços, observa-se aumento súbito da pletora facial e dispneia, por ingurgitamento decorrente da compressão do desfiladeiro torácico.

Estratégia terapêutica
A SVCS raramente mata de imediato, exceto quando há estridor ou coma (sinais de edema cerebral). A conduta segue esta ordem:
- Diagnóstico histológico: a biópsia é obrigatória antes do tratamento definitivo (rádio/quimioterapia), pois o subtipo muda o prognóstico.
- Medidas de suporte: cabeceira elevada, O2, corticoide (dexametasona para reduzir o edema tumoral) e diuréticos, com cautela para evitar hipovolemia.
- Emergência: em risco iminente à vida, o stent endovascular é a terapia de escolha para recanalização rápida.
Hipercalcemia da malignidade
A hipercalcemia é a emergência metabólica mais comum em oncologia (até 30% dos pacientes) e indica doença avançada. O cálcio sérico deve ser sempre corrigido pela albumina antes de qualquer conduta.
O quadro clínico varia conforme o tempo de instalação:
| Sistema | Formas agudas | Formas crônicas |
| Gastrointestinais | Anorexia, náusea, vômitos | Dispepsia, obstipação |
| Renais | Poliúria, polidipsia | Nefrolitíase |
| Neuromusculares | Confusão mental, estupor, coma | Fraqueza |
| Cardíacas | Bradicardia, bloqueio AV | HAS |
Mecanismos etiológicos
- Humoral (80%): secreção de PTHrP pelo tumor, comum em câncer de pulmão, mama, rim e cabeça e pescoço.
- Osteólise local (20%): invasão direta e destruição óssea, como no mieloma múltiplo e nas metástases líticas de mama.
- Produção de vitamina D: específica dos linfomas, por conversão periférica de calcitriol.
Pilares do tratamento
O objetivo é aumentar a excreção renal e inibir a reabsorção óssea:
- Hidratação vigorosa: SF 0,9% (200-300 mL/h) para promover calciurese, com alvo de débito urinário de 100-150 mL/h.
- Bisfosfonatos (padrão-ouro): inibem osteoclastos. O ácido zoledrônico (4 mg EV) é superior ao pamidronato — cautela se creatinina > 4,5.
- Calcitonina: única que age em horas, mas causa taquifilaxia (perde efeito em 48h); usada como ponte.
- Corticoides: específicos para linfomas e mieloma, pois inibem a alfa-1-hidroxilase (ativação da vitamina D).
- Denosumabe: opção na doença renal grave ou na refratariedade aos bisfosfonatos.
Síndrome de compressão medular
Aqui vale uma regra de ouro para a prova e para a prática: a dor nas costas (axial ou radicular) precede o déficit neurológico em 95% dos casos. Suspeitou, peça ressonância magnética (RM) de coluna total em caráter urgente.
A topografia mais afetada é a coluna torácica (60-80%), seguida da lombossacra e da cervical. O manejo imediato é dexametasona em altas doses (ataque de 10 mg EV + manutenção de 16 mg/dia), para reduzir o edema vasogênico e preservar a função neurológica enquanto se define a terapia.
A decisão terapêutica depende do cenário:
- Cirurgia: indicada se houver instabilidade mecânica, fragmento ósseo no canal ou necessidade de diagnóstico (tumor desconhecido).
- Radioterapia: padrão para a maioria dos casos sensíveis sem instabilidade.
Neutropenia febril
A neutropenia febril é definida por neutrófilos < 500 (ou < 1.000 em queda) associados a febre (≥ 38,3 °C em medida única ou ≥ 38,0 °C por 1 hora). É a principal emergência infecciosa do paciente oncológico.
Estratificação de risco (escore MASCC)
O escore MASCC identifica quem pode ser tratado ambulatorialmente. A lógica costuma confundir na prova: quanto maior a pontuação, menor o risco.
- Baixo risco (MASCC ≥ 21): tratamento ambulatorial com ciprofloxacino (quinolona) + amoxicilina-clavulanato, observando o paciente por 4-24h antes da alta.
- Alto risco (MASCC < 21): internação com beta-lactâmico de ação antipseudomonas (cefepime, piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico).
Quando ampliar o espectro antimicrobiano?
- Adicionar vancomicina: instabilidade hemodinâmica, infecção de cateter, suspeita de MRSA, pneumonia ou infecção de pele e partes moles.
- Adicionar antifúngico: febre persistente após 4-7 dias de antibiótico.
Síndrome de lise tumoral (SLT)
A síndrome de lise tumoral ocorre pela destruição maciça de células tumorais — espontânea ou pós-quimioterapia — em tumores de alta proliferação, como Burkitt, LLA e LMA.
A tempestade metabólica (critérios de Cairo-Bishop)
A lise celular libera potássio, fósforo e ácidos nucleicos na circulação, gerando um distúrbio clássico:
- Hipercalemia: risco de arritmia e morte súbita.
- Hiperfosfatemia: o fósforo quela o cálcio, levando à hipocalcemia (tetania, convulsão) e à precipitação de cristais de fosfato de cálcio nos rins.
- Hiperuricemia: ácido úrico > 8 mg/dL, causando nefropatia por cristais e insuficiência renal aguda.
Fixe o detalhe que mais cai: na SLT o cálcio cai.
Prevenção e tratamento
- Hidratação: agressiva (2-3 L/m²/dia) para “lavar” os túbulos renais.
- Hipouricemiantes: o alopurinol previne a formação de novo ácido úrico (inibe a xantina oxidase), mas não elimina o já formado; a rasburicase é uma enzima que degrada o ácido úrico existente, indicada em alto risco ou SLT estabelecida, com ação rápida.
- Nota: não alcalinize a urina — apesar de melhorar a solubilidade do ácido úrico, isso favorece a precipitação de fosfato de cálcio.
Tabela comparativa das emergências oncológicas
Use este resumo como revisão de véspera de prova:
| Emergência | Gatilho / etiologia principal | Achado-chave | Conduta de escolha |
| Obstrução intestinal maligna | Carcinomatose peritoneal (ovário, TGI) | Tríade: dor em cólica, distensão e vômitos | Manejo clínico: corticoide + octreotida + antieméticos |
| Síndrome da veia cava superior | Ca de pulmão (não pequenas células), linfoma não-Hodgkin | Edema facial, estase jugular, sinal de Pemberton | Biópsia antes; stent endovascular na emergência |
| Hipercalcemia da malignidade | PTHrP (humoral, 80%) | Confusão, poliúria; corrigir Ca pela albumina | Hidratação vigorosa + bisfosfonato |
| Compressão medular | Metástase vertebral (torácica, 60-80%) | Dor precede o déficit em 95% dos casos | Dexametasona em altas doses + RM urgente → RT ou cirurgia |
| Neutropenia febril | Toxicidade da quimioterapia | Neutrófilos < 500 + febre | Antibiótico de amplo espectro guiado pelo MASCC |
| Síndrome de lise tumoral | Lise de tumores de alta proliferação | Hipercalemia, hiperfosfatemia, hiperuricemia e hipocalcemia | Hidratação + alopurinol ou rasburicase |
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Perguntas frequentes sobre emergências oncológicas
Qual é a emergência oncológica metabólica mais comum?
A hipercalcemia da malignidade é a mais comum: afeta até 30% dos pacientes oncológicos e costuma sinalizar doença avançada.
Qual o exame padrão-ouro na obstrução intestinal maligna?
A tomografia de abdome com contraste é o padrão-ouro (sensibilidade de 93%), diferenciando obstrução mecânica de carcinomatose e localizando o ponto obstrutivo.
O que fazer diante da suspeita de compressão medular?
Solicite ressonância magnética de coluna total em caráter urgente e inicie dexametasona em altas doses para reduzir o edema e preservar a função neurológica.
Como o escore MASCC estratifica a neutropenia febril?
Quanto maior a pontuação, menor o risco: MASCC ≥ 21 indica baixo risco (ambulatorial) e MASCC < 21 indica alto risco (internação).
Por que não se deve alcalinizar a urina na síndrome de lise tumoral?
Porque, apesar de aumentar a solubilidade do ácido úrico, a alcalinização favorece a precipitação de cristais de fosfato de cálcio nos rins.
