
Antes que alguém me cancele: aqui, Barbie não tem gênero. Existe também um Ken médico frustrado — e, talvez, em quantidade semelhante.
“Cavarzan, eu quero dermato. É pela qualidade de vida. Quero meu consultório, minha agenda, meu horário.”
Recebo alguma variação dessa mensagem praticamente toda semana. Às vezes, trocam Dermatologia por Oftalmologia, Otorrinolaringologia ou Psiquiatria. A frase muda pouco.
O que chama minha atenção, porém, não é o sonho de seguir determinada especialidade. É o motivo apresentado para escolhê-la.
Raramente alguém me diz: “quero Dermatologia porque gosto de estudar doenças bolhosas”. O que aparece com frequência é: “quero Dermatologia porque quero uma vida”.
E de onde vem essa ideia de vida?
Das redes sociais. Mais especificamente, de um tipo de conteúdo que romantiza o consultório e transforma a rotina médica em uma espécie de produto de estilo de vida.
Antes de falar sobre isso, porém, precisamos olhar para os números. Porque, assim como acontece em outras discussões sobre residência médica, parte da conversa está sendo construída sobre uma versão idealizada da realidade.
O que os números mostram sobre a residência médica
Os dados apresentados a seguir são da Demografia Médica no Brasil 2025, estudo realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em parceria com a Associação Médica Brasileira (AMB).
Em dez anos, o número de escolas médicas no Brasil passou de 252 para 448. São 48.491 vagas de graduação em Medicina por ano, quase 80% delas em instituições privadas.
A expansão da graduação, entretanto, não foi acompanhada na mesma proporção pela oferta de vagas de residência médica.
Entre 2018 e 2024, o número de alunos matriculados em Medicina cresceu 71%, passando de 167,7 mil para 287,4 mil. No mesmo período, o número de médicos residentes aumentou 26%, de 37,7 mil para 47,7 mil.
Essa diferença fica ainda mais evidente quando olhamos para os concluintes da graduação e para as vagas de R1 de acesso direto.
Em 2024, havia 16.189 vagas de R1 de acesso direto para 32.611 médicos formados no ano anterior.
Em 2018, a diferença entre o número de formandos e o número de vagas de R1 de acesso direto era de 3.886. Em 2024, chegou a 16.422.
E, considerando as vagas de graduação já autorizadas pelo Ministério da Educação, a projeção apresentada no estudo é de que o Brasil passe a formar mais de 42 mil médicos por ano.
O cenário, portanto, é simples de entender: o número de médicos que chegam ao mercado está crescendo em uma velocidade maior do que a oferta de vagas de residência de acesso direto.
Isso significa que uma parcela significativa dos recém-formados não conseguirá ingressar imediatamente em um programa de residência médica de acesso direto.
Não necessariamente por falta de preparo. Existe também uma questão estrutural: não há vagas suficientes para todos.

O funil das especialidades mais desejadas
Agora vamos voltar àquela primeira mensagem e olhar para quatro especialidades frequentemente associadas à ideia de qualidade de vida: Dermatologia, Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Psiquiatria.
Em 2024, foram ocupadas, no Brasil, 270 vagas de R1 em Dermatologia, 519 em Oftalmologia, 234 em Otorrinolaringologia e 650 em Psiquiatria.
Somadas, são 1.673 vagas.
Se compararmos esse número com a perspectiva de mais de 42 mil novos médicos formados por ano, temos uma dimensão do tamanho do funil.
É uma conta simplificada, porque considera todas as vagas do país e apenas os formandos, sem incluir médicos de anos anteriores que também disputam essas vagas. Além disso, nem todos os candidatos estão dispostos a realizar a residência em qualquer região do Brasil.

Endocrinologia em primeiro, Dermatologia em segundo, Psiquiatria em terceiro. Fonte: Demografia Médica no Brasil 2025.
Ainda assim, a proporção ajuda a visualizar o cenário.
Os dados de concorrência do ENARE 2026/2027 caminham na mesma direção. Na concorrência preliminar, foram registrados:
- 39 candidatos por vaga em Otorrinolaringologia;
- 32 em Dermatologia;
- 29 em Oftalmologia;
- 26 em Psiquiatria.
A média geral do exame foi de 12 candidatos por vaga. Nas quatro especialidades mencionadas, eram 569 vagas para 16.737 inscritos.
Isso não significa que seja impossível passar.
Todos os anos, médicos conseguem essas vagas. São pessoas tão reais quanto você, que estudaram, fizeram a prova e conseguiram.
O ponto é outro: a realidade da concorrência precisa fazer parte da decisão sobre a carreira.
Porque, nas redes sociais, quase nunca vemos esse número.
E o que acontece com quem não consegue a vaga?
Essa talvez seja uma das partes menos discutidas dessa história.
A Demografia Médica no Brasil 2025 contabilizou 2.148 cursos de pós-graduação lato sensu voltados para médicos no país.
E algumas das especialidades mais procuradas também aparecem entre aquelas com maior número de cursos de pós-graduação.
Em 2024, havia 129 cursos de pós-graduação em Dermatologia e 115 em Psiquiatria.
Para dimensionar essa relação: eram 129 cursos de pós-graduação em Dermatologia para 270 vagas de residência na especialidade.
Além disso, 41% dos cursos de pós-graduação médica analisados no estudo eram realizados a distância.
É importante fazer uma ressalva: existem cursos de pós-graduação com propostas, cargas horárias e experiências práticas muito diferentes entre si. Há formações que oferecem uma experiência bastante próxima da rotina de residência, com carga horária elevada e atividades práticas junto a residentes.
O problema está em tratar todas essas formações como se fossem equivalentes — ou, principalmente, em escolher uma formação sem compreender exatamente o que ela oferece e quais são seus limites.
Porque existe um mercado para quem não conseguiu entrar na residência.
E esse mercado percebeu o tamanho do funil.
Quando a especialidade vira um estilo de vida
É aqui que entra uma parte importante da discussão sobre redes sociais.
Existe um tipo de conteúdo médico que é facilmente reconhecido: consultório bonito, agenda cheia, poucos dias de trabalho por semana, viagens no meio da semana, roupa branca impecável e uma rotina aparentemente organizada em torno de liberdade e qualidade de vida.
O problema não está necessariamente em mostrar uma vida boa.
O problema está no recorte.
Não aparecem a agenda vazia de determinados períodos, as dificuldades para construir uma carteira de pacientes, os pacientes de convênio, as glosas, os custos do consultório, os pacientes que não retornam ou as complicações que fazem parte da prática médica.
Isso não significa que o conteúdo seja necessariamente falso.
É um recorte.
A questão é o que esse recorte ensina para quem ainda está escolhendo uma especialidade.
Quando alguém escolhe uma área exclusivamente pelo estilo de vida que enxerga nas redes sociais, existe o risco de confundir a imagem da profissão com a profissão em si.
Você não vai viver o story.
Vai viver a terça-feira às 15 horas.
E talvez a agenda esteja cheia. Talvez esteja pela metade. Talvez esteja vazia.
A questão é: você ainda vai gostar do trabalho quando a câmera estiver desligada?
Psiquiatria também merece uma ressalva
Psiquiatria é um caso que merece uma consideração específica.
A demanda por psiquiatras é real e crescente. O problema está na versão simplificada da especialidade que circula nas redes sociais.
A ideia de uma rotina baseada exclusivamente em atendimentos remotos, consultas curtas e uma prática sem situações de maior gravidade não representa toda a realidade da especialidade.
Psiquiatria também envolve pacientes graves, contato com familiares, avaliação de risco, situações de urgência e decisões clínicas complexas.
Quem escolhe a especialidade precisa conhecer essa realidade — e não apenas a versão mais conveniente dela.
De onde eu falo
Existe ainda uma coisa que considero importante deixar clara.
Sou reumatologista. Hoje, não atuo mais em consultório e vivo de preparar médicos para provas de residência.
Ou seja: eu também ganho dinheiro com o sonho da residência médica.
Quanto mais pessoas querem passar, maior é a demanda pelo meu trabalho.
Prefiro deixar isso explícito porque qualquer reflexão sobre carreira precisa considerar também quem está falando e de onde essa pessoa está falando.
E eu não estou falando de fora dessa história.
Eu também já fui o “Ken” do começo deste texto.
Também tive uma visão idealizada sobre o que seria a vida de consultório.
Foi só quando comecei a viver a prática médica que percebi quanto existe entre a imagem de uma carreira e a realidade de exercê-la todos os dias.
O consultório que não aparece no story
Durante minha residência em Reumatologia na USP-SP, fiz centenas de infiltrações articulares. Centenas.
Não tive nenhuma complicação.
Na minha primeira infiltração fora da residência, já no meu consultório particular, aconteceu uma complicação rara: um paciente desenvolveu uma artrite por deposição de cristais relacionados ao próprio corticoide.
Era um evento raro. Mas aconteceu comigo.
No meu consultório. Com um paciente particular.
Ainda bem que, durante toda a minha formação, aprendi a explicar aos pacientes os riscos dos procedimentos, inclusive aqueles que são pouco frequentes. Isso nunca mudou quando passei a atender fora do ambiente da residência.
Mas, naquele momento, o medo apareceu.
Pensei em tudo que poderia acontecer: a complicação, a repercussão, uma eventual exposição nas redes sociais, uma denúncia ou até um processo.
E foi impossível não pensar:
cadê o glamour da vida de consultório?
Não estava ali.
O que estava ali era a responsabilidade de cuidar de um paciente.
Eu acolhi, reavaliei, conduzi o tratamento e acompanhei sua evolução. No fim, aquele paciente continuou comigo no ano seguinte e ficou bastante chateado quando encerrei o consultório para me dedicar integralmente à educação médica.
E talvez essa seja a parte mais importante da história.
O que sustenta uma carreira médica?
O que fez diferença naquela situação não foi a aparência do consultório.
Foi o fato de eu gostar da atividade médica.
Eu poderia estar atendendo em outro lugar, em outro bairro, em uma estrutura muito mais simples. Ainda assim, teria tentado oferecer o mesmo cuidado.
Porque eu me importava com aquele paciente.
E isso é algo que dificilmente aparece em um story.
Ninguém posta a complicação.
Ninguém posta os meses — ou anos — necessários para construir uma agenda.
Ninguém mostra o custo de manter um consultório, a insegurança de não saber como será o próximo mês ou a responsabilidade de saber que, quando o paciente entra pela porta, aquela decisão é sua.
O consultório não é um refúgio da carreira médica.
É justamente um dos lugares em que ela fica mais exposta.
Você deixa de ter apenas um salário e passa a depender de faturamento. E faturamento depende de pessoas escolherem você.
Todos os meses.
De novo.
É por isso que acredito que a bolha do “consultório perfeito” não estoura necessariamente na prova de residência.
Ela pode estourar depois.
Quando o médico percebe o trabalho necessário para construir e manter uma carreira.
Escolha uma especialidade que você queira viver
Essa é a reflexão que eu gostaria que ficasse deste texto.
Não existe problema em querer qualidade de vida. Não existe problema em querer um consultório, uma agenda organizada, autonomia ou uma boa remuneração.
Esses são desejos legítimos.
O problema começa quando eles se tornam o único motivo para escolher uma especialidade.
Porque toda especialidade tem uma terça-feira às 15 horas. Tem paciente difícil. Tem paciente que não melhora. Tem responsabilidade. Tem estudo. Tem dias bons e dias ruins. Tem trabalho que ninguém vê.
Por isso, talvez a pergunta mais importante antes de escolher uma especialidade não seja:
“Que especialidade vai me dar a vida que eu quero?”
Mas:
“Que trabalho eu estaria disposto a fazer mesmo quando ninguém estiver vendo?”
Quem constrói um consultório sustentável não é necessariamente quem escolheu a especialidade considerada “certa”.
É quem encontrou uma razão para continuar quando a rotina deixou de parecer com o Instagram.
É quem se dedica.
É quem conhece o mercado em que pretende atuar: onde existem especialistas, quais regiões têm demanda, como funcionam os convênios, quais são as necessidades dos pacientes e quais problemas ainda não estão sendo bem atendidos.
E, principalmente, é quem trata o paciente com respeito e interesse genuíno.
Isso também constrói uma carreira.
Paciente bem cuidado tende a voltar. Pode indicar o médico para outras pessoas. Pode construir uma relação de confiança ao longo dos anos.
Essa é uma forma de reconhecimento que não cabe muito bem em um story.
E talvez justamente por isso seja tão importante.
Sim, um consultório pode dar dinheiro.
Mas o dinheiro precisa ser consequência de um trabalho que você esteja disposto a fazer mesmo quando ninguém estiver filmando.
A última cena
No filme Barbie, depois de conhecer o mundo real, Barbie poderia ter escolhido voltar para a Barbielândia.
Ela escolhe ficar.
E a última cena mostra Barbie chegando, radiante, à consulta com uma ginecologista.
É uma escolha simbólica pelo mundo real: um mundo com consultório, paciente e responsabilidades.
Talvez seja uma boa metáfora para quem está escolhendo uma especialidade médica.
Se você vai escolher sua especialidade este ano, tente escolher pela terça-feira.
O story a gente grava depois.
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Escrita pelo Dr. Mateus Cavarzan, é o espaço onde a gente discute o que realmente impacta o seu plantão e o seu edital — sem enrolação e direto ao ponto.
