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Álcool no Enamed: rastreio com AUDIT, intervenção breve e síndrome de abstinência

Entenda como o ENAMED pode cobrar o uso de álcool, do rastreamento com AUDIT ao manejo da abstinência alcoólica e da encefalopatia de Wernicke.

O álcool é a substância psicoativa mais prevalente na Atenção Primária, mas o que a prova cobra não é o dependente grave do pronto-socorro — é o paciente do meio: o que bebe além do recomendado, ainda não adoeceu e nunca teve abstinência. Não é dependente nem bebedor social, e tem nome, escore e conduta próprios.

No INEP, o tema “álcool” caiu nos dois extremos: uso nocivo no ambulatório e encefalopatia de Wernicke na emergência. Entre eles está o que importa dominar — quantificar em doses, rastrear com o AUDIT, diagnosticar, decidir entre intervenção breve e encaminhamento e, se preciso, medicar. Foi aí que uma aluna tropeçou: homem de 34 anos, 8 latas por fim de semana, sem dano, AUDIT 11, e ela marcou “dependência, encaminhar ao CAPS-AD”.

A resposta era intervenção breve na própria UBS, com retorno agendado. Ela não errou por desconhecer a dependência, mas por enxergar só duas caixas — bebedor social ou dependente — sem o meio. Vamos percorrer o caminho inteiro, do rastreio na UBS ao manejo da síndrome de abstinência no pronto-socorro.

Manejo do uso de álcool: os seis passos, do consumo à conduta

Antes de qualquer detalhe, guarde a sequência. Toda questão de álcool, sem exceção, cai em um destes degraus:

  1. Quanto ele bebe? (quantificar em doses)
  2. Qual o escore? (rastreio com o instrumento certo)
  3. Em que zona ele caiu? (as quatro zonas do AUDIT)
  4. Que diagnóstico é esse? (uso de risco, uso nocivo ou dependência)
  5. Intervenção breve ou encaminhamento?
  6. Ele leva remédio? Qual?

E, fora do caminho, um sétimo lugar de onde a banca tira questão: o pronto-socorro, com a síndrome de abstinência e a Wernicke.

Uma observação de método antes de seguir. No post de tabagismo eu te falei que aquele era o tema mais generoso da prova, porque tem PCDT: protocolo fechado, com dose e data. Álcool não tem PCDT. O que existe de norma nacional é a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde para transtornos por uso de álcool no adulto, somada ao Caderno de Atenção Básica nº 34 e ao manual do AUDIT da OMS. É menos fechado que o tabagismo, mas é mais que suficiente pra montar o gabarito.

Resumo em tabela: rastreio, diagnóstico e conduta no uso de álcool

PassoPerguntaO que decide
1. DoseQuanto ele bebe?1 dose = 14 g de etanol. Baixo risco (MS): homens até 14/semana e 4/ocasião; mulheres e idosos até 7/semana e 3/ocasião. Passou em um dos eixos = consumo de risco.
2. RastreioQual instrumento?AUDIT (10 perguntas, 0 a 40), o preferido do MS. AUDIT-C (3 primeiras): positivo ≥4 homens, ≥3 mulheres. CAGE (4 perguntas): positivo ≥2, mas não detecta consumo de risco.
3. ZonaEscore do AUDIT0 a 7 orientar; 8 a 15 intervenção breve; 16 a 19 intervenção breve + monitoramento; 20 a 40 plano terapêutico estruturado.
4. DiagnósticoO que ele tem?Uso de risco: sem dano ainda. Uso nocivo: dano já presente. Dependência: CID-10, 3 de 6 critérios. DSM-5-TR: TUA com 11 critérios, ≥2; leve 2-3, moderado 4-5, grave ≥6.
5. CondutaUBS ou especializado?Intervenção breve (FRAMES) na APS. Encaminha: moderado a grave com desejo de tratar após esgotar a APS, grave em gestante, ideação suicida persistente. Risco agudo vai pra emergência.
6. RemédioQual?Naltrexona 50 mg/dia é a primeira escolha prática no Brasil. Acamprosato: primeira linha na teoria, não comercializado aqui. Dissulfiram: segunda linha, aversivo. Manter ≥3 meses.

Agora vamos abrir cada degrau.

Passo 1 — Quantificação do consumo: a dose padrão de 14g de etanol

Quem quantifica em “latas” ou “garrafas” já começou errado, porque a banca fala em doses, e dose é uma unidade de massa de etanol.

No Brasil, uma dose padrão tem 14g de álcool puro. Isso equivale a uma lata de cerveja de 350ml a 5%, uma taça de vinho de 150ml a 12% ou 45ml de destilado a 40%. Uma garrafa de 600ml de cerveja são quase duas doses. Uma garrafa de vinho, cinco. Repare que esse é o padrão do CISA e do material da SENAD, e coincide com o norte-americano. A OMS, nos documentos internacionais, trabalha com 10g como dose padrão. Se a questão citar a OMS nominalmente, o número pode ser outro. Repare em quem a alternativa está citando.

A partir daí, os limites de consumo de baixo risco pelo Ministério da Saúde:

  • Homens: até 14 doses por semana e até 4 doses por ocasião;
  • Mulheres e idosos: até 7 por semana e até 3 por ocasião.

O “e” importa. Basta ultrapassar um dos dois eixos para entrar em consumo de risco: o sujeito que bebe 4 doses toda sexta e sábado fecha 8 na semana, abaixo do limite semanal masculino, mas se num desses dias tomar 5, já estourou o limite por ocasião. É o padrão do beber pesado episódico, o famoso binge, que o NIAAA define como 5 ou mais doses para homens e 4 ou mais para mulheres em cerca de duas horas [29].

E existe gente para quem o limite é zero, independentemente da conta:

  • Gestante;
  • Nutriz;
  • Quem está tentando engravidar;
  • Menor de 18 anos;
  • Quem vai dirigir ou operar máquina;
  • Quem tem doença agravada pelo álcool ou usa medicação que interage;
  • Quem já demonstrou que não consegue controlar o consumo.

Agora a pegadinha nova, que virou tendência de banca. Desde janeiro de 2023 a OMS afirma, em texto oficial, que não existe nível de consumo de álcool seguro para a saúde. O argumento está num comentário publicado no Lancet Public Health: álcool é carcinógeno do grupo 1 da IARC, e não há limiar identificado abaixo do qual o risco de câncer desapareça. O Ministério da Saúde incorporou a frase na própria Linha de Cuidado: “não existe consumo de álcool isento de risco”. Então, se a alternativa disser que uma taça de vinho por dia protege o coração, ela envelheceu. Baixo risco não é ausência de risco.

Passo 2 — Rastreio do uso de álcool: AUDIT, AUDIT-C e CAGE

Aqui a banca tem três siglas na manga, e a questão costuma ser sobre qual delas usar.

O AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test) foi desenvolvido pela OMS para a Atenção Primária. São 10 perguntas sobre os últimos 12 meses, cada uma valendo até 4 pontos (as duas últimas pontuam só 0, 2 ou 4), num escore de 0 a 40. As três primeiras medem consumo, as três seguintes sintomas de dependência, e as quatro últimas problemas relacionados. É o instrumento que o Ministério da Saúde recomenda, e a Linha de Cuidado diz o motivo com todas as letras: ele é preferível para rastreamento porque detecta também o consumo de risco, permitindo intervenção mais precoce.

O AUDIT-C são as três primeiras perguntas do AUDIT, escore de 0 a 12. Serve como triagem rápida dentro da consulta: se der positivo, você aplica o AUDIT completo. O ponto de corte com diferença por sexo, 4 ou mais em homens e 3 ou mais em mulheres, vem do estudo de validação de Bradley e colaboradores em atenção primária. Uma ressalva honesta: o texto da Linha de Cuidado do MS escreve “acima de 3 pontos para mulheres e acima de 4 para homens”, o que lido ao pé da letra daria 4 e 5. É ambiguidade de redação do próprio ministério. Para prova, 4 e 3 é a resposta consolidada.

O CAGE tem quatro perguntas, e o acrônimo é a chave de memória: Cut down (já pensou em diminuir?), Annoyed (já se aborreceu com críticas ao seu jeito de beber?), Guilty (já se sentiu culpado?), Eye-opener (já bebeu de manhã pra aliviar a ressaca ou os nervos?). Positivo com duas ou mais respostas afirmativas.

E agora o ponto que vale a questão: o CAGE não pergunta quantidade, não pergunta frequência e não tem janela de tempo. Ele foi desenhado para detectar dependência já instalada, e faz isso bem em população de alta prevalência, tipo enfermaria e pronto-socorro. Mas ele não detecta consumo de risco. Ou seja, o paciente da minha aluna, com AUDIT 11, provavelmente zeraria o CAGE. E é justamente esse paciente que você ainda consegue puxar de volta com uma conversa de vinte minutos. É por isso que o MS prefere o AUDIT [2]. Se a alternativa disser “aplicar o CAGE para rastrear uso de risco na Atenção Primária”, ela está errada.

Passo 3 — As quatro zonas de risco do AUDIT e suas condutas

Esse é o slide que eu mandaria imprimir. A Linha de Cuidado do MS, seguindo o manual da OMS, divide o escore em quatro faixas de risco, cada uma com sua conduta:

  • Zona I, 0 a 7. Baixo risco. Não é caso de intervenção breve estruturada. Você orienta os limites, avalia se aquele paciente específico tem indicação de consumo zero e reavalia nas consultas de rotina.
  • Zona II, 8 a 15. Uso de risco. Aqui entra a intervenção breve com entrevista motivacional, e retorno em torno de um mês.
  • Zona III, 16 a 19. Uso nocivo. Intervenção breve somada a monitoramento continuado.
  • Zona IV, 20 a 40. Provável dependência. Intervenção breve não dá conta. É plano terapêutico estruturado.

Duas observações. A primeira: você vai encontrar por aí formulário que imprime a Zona IV como “20 a 30” e que só aloca intervenção breve a partir da Zona III. Siga o MS e a OMS: 20 a 40, e intervenção breve começando na Zona II. A segunda, que é uma pegadinha fina: escore alto não é sinônimo de encaminhar. A tabela do MS para a faixa 20 a 40 manda estabelecer plano terapêutico; o encaminhamento ao serviço especializado tem critérios próprios, que eu abro no passo 5. Se você decorar “20 = CAPS”, vai errar a questão que der um paciente com AUDIT 24 e perguntar a conduta inicial.

Decore o desenho, não os números soltos: 8 abre a intervenção, 20 abre o plano.

Passo 4 — Diagnóstico: uso de risco, uso nocivo e dependência (CID-10 e DSM-5-TR)

Os três termos que a banca embaralha não são sinônimos, e a diferença entre eles é conceitual, não numérica.

  • Uso de risco (hazardous): o padrão de consumo aumenta a probabilidade de dano, mas o dano ainda não apareceu. Não é diagnóstico de transtorno. É fator de risco. A CID-11, inclusive, tira esse código do capítulo de transtornos mentais.
  • Uso nocivo (harmful): o dano já aconteceu, físico ou mental. Uma pancreatite, uma hepatite alcoólica, um episódio depressivo desencadeado pelo álcool, uma lesão numa briga de bar. Aqui já existe transtorno.
  • Dependência: perda de controle, prioridade do álcool sobre outras atividades (a chamada saliência), tolerância, abstinência, fissura. Na CID-10, o corte é três ou mais de seis critérios em 12 meses.

O DSM-5-TR juntou abuso e dependência num diagnóstico único, o transtorno por uso de álcool: 11 critérios, diagnóstico com 2 ou mais em 12 meses, gravidade em três faixas (2 a 3 critérios, leve; 4 a 5, moderado; 6 ou mais, grave). E a equivalência que o próprio Ministério da Saúde escreve, e que rende questão: o transtorno leve do DSM-5 corresponde ao uso nocivo da CID-10; moderado e grave correspondem à dependência.

Um detalhe de história que virou distrator: o DSM-5 retirou “problemas legais recorrentes” da lista de critérios e acrescentou fissura (craving). Se a alternativa citar “problemas com a polícia” como critério diagnóstico, ela está no DSM-IV.

Passo 5 — Intervenção breve (FRAMES) e critérios de encaminhamento

Aqui tem uma armadilha da série que eu preciso desarmar. No post de tabagismo eu te dei uma sigla oficial, o PAAPA do INCA. Você vai procurar a sigla equivalente pro álcool e não vai achar, porque o Ministério da Saúde não usa acrônimo nenhum para a intervenção breve no álcool. O que a Linha de Cuidado operacionaliza é o modelo de estágios de mudança de Prochaska e DiClemente (pré-contemplação, contemplação, preparação, ação, manutenção, recaída), cada um com uma postura, somado à entrevista motivacional.

O acrônimo que existe, e que a banca pode citar, vem da literatura: FRAMES.

  • Feedback: devolva ao paciente o risco DELE, com o escore do AUDIT na mão, não uma palestra genérica.
  • Responsibility: a decisão de mudar é dele.
  • Advice: aconselhamento claro e direto para reduzir ou parar.
  • Menu: um cardápio de estratégias, não uma ordem única.
  • Empathy: postura empática, nunca confrontativa.
  • Self-efficacy: ele precisa acreditar que é capaz.

A intervenção breve dura de 5 a 30 minutos, em uma a três sessões. Estudo brasileiro de Ribeirão Preto mostrou que vinte minutos com técnica motivacional superam a orientação de dois a três minutos, e que os efeitos mais amplos aparecem com três a cinco sessões de quinze a trinta minutos, com material educativo, meta definida e monitoramento. O programa nacional dessa linha, se aparecer, chama-se PAI-PAD, da FMRP-USP em parceria com o MS e a OMS. Não é terapia. É consulta.

Quem sai da APS. A Linha de Cuidado lista três critérios de encaminhamento à atenção psicossocial especializada [2]: transtorno moderado a grave, com desejo de realizar tratamento e após esgotados os recursos da APS; transtorno grave em gestante ou lactante; ideação suicida persistente. Repare no primeiro: não é “moderado a grave, logo CAPS”. É moderado a grave que já passou pela APS e quer tratamento. As atribuições da Atenção Primária, no texto do MS, são diagnóstico precoce, tratamento dos casos não complicados e referenciamento dos moderados e graves.

E quem não vai pro CAPS-AD, vai pra emergência. Risco agudo de suicídio, auto ou heteroagressão, quadro psicótico agudizado, abstinência moderada a grave: isso é avaliação no mesmo dia, em serviço de urgência [2][3]. Confundir CAPS-AD com pronto-socorro psiquiátrico é erro clássico.

Sim, sim, sei que é bonito isso, mas é a mais pura verdade: o CAPS-AD é serviço de porta aberta. O encaminhamento formal qualifica o cuidado, não é senha de entrada.

Passo 6 — Tratamento farmacológico: naltrexona, acamprosato e dissulfiram

O primeiro princípio é o mesmo do tabagismo: farmacoterapia é para o transtorno moderado a grave, e sempre acoplada à abordagem psicossocial. Remédio nenhum trata álcool sozinho.

A diretriz da American Psychiatric Association de 2018 recomenda naltrexona ou acamprosato para o transtorno moderado a grave em quem quer reduzir ou parar de beber (recomendação forte, grau 1C). Dissulfiram fica como recomendação condicional (2C), para quem busca abstinência total, entende os riscos e não respondeu ou não tolerou os dois primeiros. Topiramato e gabapentina entram no mesmo grau condicional, quando as primeiras opções falham ou não podem ser usadas.

Os números que sustentam isso vêm da metanálise de Jonas e colaboradores, no JAMA de 2014, com mais de 120 ensaios: para evitar o retorno a qualquer consumo, o NNT do acamprosato foi 12 e o da naltrexona 50 mg foi 20; para evitar o retorno ao consumo pesado, o NNT da naltrexona foi 12. Ou seja, os dois funcionam, com perfis um pouco diferentes: acamprosato é mais um remédio de manter a abstinência, naltrexona é mais um remédio de reduzir o beber pesado. O estudo COMBINE, também no JAMA, reforçou a naltrexona associada ao manejo médico e não encontrou benefício do acamprosato naquele desenho.

Agora, o que isso vira na prática brasileira.

Naltrexona é a primeira escolha real. Antagonista de receptores opioides, ela reduz o reforço positivo do álcool e a fissura. A dose é 50 mg por dia, via oral. E há três pontos que a banca adora inverter:

  • Primeiro: ela não exige que o paciente esteja abstinente de álcool para começar. Pode iniciar com o paciente ainda bebendo, com a meta de reduzir. Isso é diferente do dissulfiram.
  • Segundo: ela exige que o paciente esteja livre de opioides. A bula pede um mínimo de 7 a 10 dias sem opioide antes de iniciar, porque a naltrexona precipita abstinência em quem depende, e quem vai precisar de analgesia opioide (uma cirurgia programada, por exemplo) não é candidato.
  • Terceiro: a contraindicação hepática é hepatite aguda e insuficiência hepática, e não “qualquer hepatopatia”. O paciente com cirrose compensada e transaminases discretamente alteradas, que é o paciente típico do álcool, não tem contraindicação automática. Marcar “contraindicada por hepatopatia” nesse caso é errar por excesso de zelo.

Sobre acesso: a naltrexona tem registro na ANVISA e é vendida no Brasil, mas não consta da RENAME 2024 [21]. Alguns estados a padronizaram por conta própria e dispensam em CAPS-AD, como o Distrito Federal, que tem protocolo próprio de uso de dissulfiram e naltrexona [20]. Se a questão perguntar “disponível no SUS”, a resposta honesta é “depende do estado”. Uma questão de INEP dificilmente entra nessa, mas vale saber.

Acamprosato é o caso curioso. Doutrinariamente, empata com a naltrexona como primeira linha, e é o que os livros de fora colocam lado a lado. Mas ele não é comercializado no Brasil. Guarde o nome, o mecanismo (modulador glutamatérgico, que estabiliza o sistema após a retirada do álcool) e o fato de ser eliminado pelo rim, o que contraindica na insuficiência renal grave. Não espere encontrá-lo em nenhuma farmácia daqui.

Dissulfiram é o mais antigo e o mais folclórico. Ele bloqueia a aldeído desidrogenase, acumula acetaldeído e produz a reação: rubor, náusea, vômito, taquicardia, hipotensão. Não trata fissura, não trata nada: ele cria uma barreira aversiva. Por isso é segunda linha, para quem quer abstinência total, compreende o que acontece se beber e, idealmente, tem alguém supervisionando a tomada. Contraindicado em cardiopatia grave, psicose e gestação, e exige que o paciente já esteja abstinente antes de iniciar. É, historicamente, o que costuma estar disponível no CAPS-AD via SUS.

Quanto tempo: a farmacoterapia se mantém por pelo menos três meses, e a Linha de Cuidado fala em programa estruturado de 6 a 12 semanas ou mais. Não existe data de alta automática.

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Emergência: síndrome de abstinência alcoólica, delirium tremens e encefalopatia de Wernicke

A outra questão de álcool do INEP foi de Wernicke. Então o bloco de urgência não é opcional.

A linha do tempo da abstinência, em horas depois do último gole, é o que mais se cobra:

  • 6 a 12 horas: tremor, ansiedade, sudorese, taquicardia, insônia.
  • 12 a 24 horas: alucinose alcoólica.
  • 12 a 48 horas: convulsão tônico-clônica generalizada.
  • 48 a 96 horas: delirium tremens.

A Linha de Cuidado do MS estende o delirium tremens para 3 a 5 dias, podendo chegar a 14. Os manuais de prova usam 48 a 96 horas. Se a questão pedir o pico, 48 a 72 horas é o consenso.

A troca clássica, que derruba gente boa: na alucinose a consciência está preservada e a alucinação é predominantemente auditiva, muitas vezes com conteúdo persecutório. No delirium tremens a consciência está rebaixada e flutuante, a alucinação é visual (os bichinhos na parede) e existe disautonomia importante: febre, taquicardia, hipertensão, sudorese profusa. Não são a mesma coisa e não acontecem na mesma hora. Delirium tremens tem mortalidade, e por isso é internação.

Benzodiazepínico é a classe de escolha, e isso é consenso desde a metanálise de Mayo-Smith em 1997 até a diretriz da ASAM de 2020. A escala CIWA-Ar (10 itens, escore máximo 67) orienta a dose: sintomas leves abaixo de 8, medicando a partir de 8 a 10 pontos. Diazepam é a regra, por ser de ação longa e cobrir o desmame sozinho. Lorazepam ou oxazepam entram no hepatopata grave e no idoso, porque não passam por oxidação hepática, só por glicuronidação, e não acumulam metabólito ativo.

E três proibições que o próprio Ministério da Saúde escreve em caixa alta: não usar fenitoína para tratar convulsão de abstinência, porque ela não previne a recorrência dessas crises e a ASAM reserva anticonvulsivante para quem tem epilepsia de base; não usar clorpromazina, que rebaixa o limiar convulsivo; e, se for imprescindível um antipsicótico para agitação refratária ou alucinação intensa, é haloperidol em dose baixa, sempre adjuvante ao benzodiazepínico, nunca em monoterapia.

Encefalopatia de Wernicke é deficiência de tiamina, e a tríade clássica é confusão mental, ataxia e oftalmoplegia (o nistagmo é o sinal ocular mais comum). Só que apenas 16 a 33% dos pacientes apresentam a tríade completa. Na série clássica de Harper, com 131 casos diagnosticados em necropsia, a tríade completa apareceu em 16%. Quer dizer: se você esperar as três, você vai perder a maioria. Um etilista confuso já é Wernicke até prova em contrário.

O tratamento é tiamina parenteral, em dose alta. A diretriz europeia fala em 200 mg IV, três vezes ao dia, até a resolução dos sintomas, e a absorção oral no etilista é imprevisível demais para confiar. Na profilaxia, o MS aceita a via oral em dose de 300 mg quando não há tiamina parenteral disponível, registrando que ela é menos eficaz. E a regra que a prova sempre cobra: tiamina antes da glicose. A Linha de Cuidado é explícita em não administrar glicose isolada ao etilista, pelo risco de desencadear ou piorar a encefalopatia, e em só corrigir hipoglicemia depois da tiamina. Vale a honestidade intelectual: a revisão de Schabelman e Kuo mostrou que a base dessa regra é fraca e que nunca se deve atrasar a glicose num hipoglicêmico sintomático; o correto é dar as duas, com a tiamina junto ou logo em seguida. Mas na prova brasileira o gabarito é tiamina primeiro, e a norma do MS sustenta isso.

Sem tratamento, a Wernicke pode evoluir para a síndrome de Korsakoff: amnésia anterógrada grave, com confabulação, e aí o quadro é crônico e largamente irreversível.

Resolução do caso clínico: os seis passos aplicados

Homem de 34 anos, oito latas por fim de semana, AUDIT 11, sem dano, sem abstinência.

  • Passo 1: oito doses num fim de semana, com dias de 4 ou 5 latas, estoura o limite por ocasião.
  • Passo 2: AUDIT, o instrumento certo.
  • Passo 3: escore 11, Zona II.
  • Passo 4: uso de risco, sem transtorno instalado.
  • Passo 5: intervenção breve na UBS, FRAMES, retorno em um mês.
  • Passo 6: não é candidato a farmacoterapia.

Nada de CAPS. Nada de naltrexona. Uma conversa bem feita, com o escore na mão e uma meta combinada.

É isso que separa quem estuda álcool de quem estuda só o alcoolista. A dependência é o fim do caminho. A prova, e a Atenção Primária, vivem do começo dele.

Imagem gerada através do Magnific

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Escrita pelo Dr. Mateus Cavarzan, é o espaço onde a gente discute o que realmente impacta o seu plantão e o seu edital — sem enrolação e direto ao ponto.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Transtornos por uso de álcool no adulto. Definição. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/transtornos-por-uso-de-alcool-no-adulto/definicao/

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Transtornos por uso de álcool no adulto. Unidade de Atenção Primária: planejamento terapêutico. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/transtornos-por-uso-de-alcool-no-adulto/unidade-de-atencao-primaria/planejamento-terapeutico/

[3] BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Transtornos por uso de álcool no adulto. Unidade de Atenção Primária: manejo inicial e conduta. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/transtornos-por-uso-de-alcool-no-adulto/unidade-de-atencao-primaria/manejo-inicial-conduta/

[4] BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica nº 34: Saúde Mental. Brasília, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cadernos_atencao_basica_34_saude_mental.pdf

[5] BABOR, T. F.; HIGGINS-BIDDLE, J. C.; SAUNDERS, J. B.; MONTEIRO, M. G. AUDIT: The Alcohol Use Disorders Identification Test. Guidelines for Use in Primary Care. 2. ed. Genebra: OMS, 2001 (WHO/MSD/MSB/01.6a). Disponível em: https://pcl.psychiatry.uw.edu/wp-content/uploads/2025/04/AUDIT.pdf

[6] CISA, Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. Definição de dose padrão. Disponível em: https://cisa.org.br/sua-saude/informativos/artigo/item/48-definicao-de-dose-padrao

[7] WORLD HEALTH ORGANIZATION, Regional Office for Europe. No level of alcohol consumption is safe for our health. 4 jan. 2023. Disponível em: https://www.who.int/europe/news/item/04-01-2023-no-level-of-alcohol-consumption-is-safe-for-our-health

[8] ANDERSON, B. O. et al. Health and cancer risks associated with low levels of alcohol consumption. The Lancet Public Health, 2023;8(1):e6-e7. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanpub/article/PIIS2468-2667(22)00317-6/fulltext

[9] BUSH, K. et al. The AUDIT alcohol consumption questions (AUDIT-C): an effective brief screening test for problem drinking. Archives of Internal Medicine, 1998;158(16):1789-1795. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9738608/

[10] BRADLEY, K. A. et al. AUDIT-C as a brief screen for alcohol misuse in primary care. Alcoholism: Clinical and Experimental Research, 2007;31(7):1208-1217. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17451397/

[11] EWING, J. A. Detecting alcoholism: the CAGE questionnaire. JAMA, 1984;252(14):1905-1907. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/394693

[12] MARQUES, A. C. P. R.; FURTADO, E. F. Intervenções breves para problemas relacionados ao álcool. Revista Brasileira de Psiquiatria, 2004;26(Supl. I):28-32. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbp/a/rC8gw3VvwMDK43hvpBYNbbf/?lang=pt

[13] MINTO, E. C. et al. Intervenções breves para o uso abusivo de álcool em atenção primária. Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2007;16(3):207-220. Disponível em: http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-49742007000300007

[14] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, texto revisado (DSM-5-TR). Washington: APA, 2022.

[15] REUS, V. I. et al. The American Psychiatric Association Practice Guideline for the Pharmacological Treatment of Patients With Alcohol Use Disorder. American Journal of Psychiatry, 2018;175(1):86-90. Disponível em: https://psychiatryonline.org/doi/10.1176/appi.ajp.2017.1750101

[16] JONAS, D. E. et al. Pharmacotherapy for adults with alcohol use disorders in outpatient settings: a systematic review and meta-analysis. JAMA, 2014;311(18):1889-1900. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/1869208

[17] ANTON, R. F. et al. Combined pharmacotherapies and behavioral interventions for alcohol dependence: the COMBINE study. JAMA, 2006;295(17):2003-2017. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/202789

[18] Naltrexone Hydrochloride Tablets USP, 50 mg. Prescribing information. DailyMed / FDA. Disponível em: https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/drugInfo.cfm?setid=3c7da2bc-e2c1-48f6-8c3f-287119b427e2

[19] CISA, Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. Existem medicamentos para o tratamento do alcoolismo? Disponível em: https://cisa.org.br/sua-saude/informativos/artigo/item/363-existem-medicamentos-para-o-tratamento-do-alcoolismo

[20] DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Saúde. Protocolo: uso do dissulfiram e naltrexona no tratamento da dependência de álcool. Disponível em: https://www.saude.df.gov.br/documents/d/saude/protocolo-uso-do-dissulfiram-e-naltrexona-no-tratamento-da-depend-c3-aancia-de-c3-81lcool

[21] SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Saúde. InfoSUS: Naltrexona, cloridrato (registra a ausência do fármaco na RENAME 2024). Página atualizada em 10/08/2026. Disponível em: http://infosus.saude.sc.gov.br/index.php/Naltrexona,_cloridrato

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Autor

  • Sou Mateus Cavarzan, médico reumatologista formado pela USP-SP — apaixonado por lúpus e mentor para a prova de residência. Você me acompanha também no Instagram (@mateuscavarzan) e no TikTok (@mateuscavarzan).

    CRM: 199884 | RQE Clínica Médica: 109195 | RQE Reumatologia: 109196

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