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Hiperprolactinemia: causas, sintomas, diagnóstico e tratamento

A hiperprolactinemia é caracterizada pela elevação dos níveis de prolactina no sangue e está entre as alterações endócrinas que podem comprometer a função reprodutiva. O aumento desse hormônio pode provocar irregularidades menstruais, galactorreia, redução da libido, infertilidade, e sintomas de hipoestrogenismo.

A investigação clínica é fundamental para identificar a causa da alteração e definir a conduta adequada. Neste artigo, entenda como a prolactina atua no organismo, quais são as principais causas da hiperprolactinemia, como reconhecer suas manifestações clínicas e quais exames podem ser utilizados na avaliação diagnóstica.

O que é hiperprolactinemia?

A hiperprolactinemia ocorre quando a concentração sérica de prolactina ultrapassa o limite superior de referência do método laboratorial utilizado. Em mulheres não grávidas, os valores de referência geralmente são inferiores a 25 ng/mL, mas devem ser interpretados conforme o laboratório e o contexto clínico.

A condição pode ter causas fisiológicas, medicamentosas ou patológicas. Entre as  possibilidades mais comuns estão gestação, lactação, uso de determinados fármacos, hipotireoidismo e prolactinomas, que são tumores hipofisários produtores de prolactina.

A alteração merece atenção especialmente quando está associada a irregularidades menstruais, infertilidade, galactorreia ou sinais de comprometimento da função hipofisária.

Qual é a função da prolactina?

A prolactina é um hormônio produzido pelos lactotrofos da hipófise anterior, também chamada de adenohipófise. Sua principal função é estimular a produção de leite pelas glândulas mamárias.

Diferentemente de muitos outros hormônios hipofisários, sua secreção é mantida sob inibição contínua pela dopamina produzida no hipotálamo. Esse neurotransmissor atua nos receptores dopaminérgicos D2, reduzindo a liberação de prolactina.

Quando essa inibição é reduzida, os níveis hormonais podem aumentar. Isso pode ocorrer, por exemplo, pelo uso de medicamentos que bloqueiam a ação da dopamina ou por lesões que comprometem a comunicação entre o hipotálamo e a hipófise.

Hormônios produzidos pela hipófise e sua área de atuação. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

O excesso de prolactina também interfere no eixo reprodutivo: inibe a secreção do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH), reduzindo a liberação de LH e FSH. Como consequência, podem ocorrer alterações da ovulação e da produção de hormônios sexuais.

Fisiologia dos hormônios produzidos pela hipófise. Fonte: Acervo de aulas do Grupo MedCof. 

Quais são as causas da hiperprolactinemia?

As causas da hiperprolactinemia podem ser divididas em fisiológicas, medicamentosas, patológicas e sistêmicas. Quando a investigação não identifica uma causa evidente, o quadro pode ser classificado como idiopático.

Causas fisiológicas

A prolactina pode aumentar naturalmente em algumas situações, sem que isso represente necessariamente uma doença. Entre elas estão:

  • Gestação e lactação;
  • Sono;
  • Estresse físico ou emocional;
  • Estímulo mamilar.

Esses fatores devem ser considerados na interpretação dos exames, especialmente quando a elevação é discreta.

Causas medicamentosas

Alguns medicamentos interferem na regulação dopaminérgica e podem elevar os níveis de prolactina. Entre os exemplos estão determinados antipsicóticos, antidepressivos, antieméticos e procinéticos, além de alguns anti-hipertensivos e opioides.

Entre os fármacos associados estão risperidona, haloperidol, metoclopramida e domperidona. A possibilidade de hiperprolactinemia medicamentosa deve ser avaliada considerando o medicamento utilizado, a dose, o momento de início do tratamento e o contexto clínico.

Atenção: medicamentos de uso contínuo não devem ser suspensos ou substituídos sem avaliação do profissional responsável pela prescrição.

Causas hipofisárias e tumorais

Os prolactinomas são tumores neuroendócrinos geralmente benignos da hipófise que produzem prolactina. São classificados conforme o tamanho:

  • Microprolactinomas: menores que 1 cm;
  • Macroprolactinomas: iguais ou maiores que 1 cm.

Outras lesões da região hipofisária também podem elevar a prolactina. Quando uma massa comprime a haste hipofisária, pode prejudicar a chegada da dopamina à hipófise, reduzindo a inibição da secreção hormonal. Esse mecanismo é conhecido como efeito haste.

Doenças sistêmicas

Algumas condições clínicas podem contribuir para a elevação da prolactina, como:

O hipotireoidismo, por exemplo, pode aumentar a secreção de TRH, hormônio que estimula a liberação de prolactina.

Hiperprolactinemia idiopática

A hiperprolactinemia idiopática é considerada quando a elevação hormonal persiste e a investigação não identifica uma causa fisiológica, medicamentosa ou patológica evidente. A classificação depende da avaliação clínica e dos exames complementares.

Como é feito o diagnóstico da hiperprolactinemia?

A investigação combina avaliação clínica, dosagem laboratorial e, quando indicada, exames complementares. O objetivo é confirmar a alteração hormonal e identificar sua causa.

1. Dosagem sérica de prolactina

A dosagem de prolactina no sangue é o principal exame laboratorial para investigar a condição. Os resultados devem ser comparados ao intervalo de referência do laboratório.

Elevações discretas podem exigir uma nova coleta, especialmente quando há possibilidade de interferência do estresse relacionado à punção venosa. A interpretação também considera gestação, lactação, medicamentos em uso e sintomas associados.

A dosagem não é recomendada indiscriminadamente como exame de rotina para todas as pessoas: sua indicação depende do contexto clínico e da suspeita diagnóstica.

2. Investigação de outras causas

Após confirmar a elevação, o profissional pode solicitar exames complementares de acordo com a hipótese clínica. Entre eles estão:

  • Teste de gravidez: quando aplicável;
  • TSH: para investigar hipotireoidismo;
  • Avaliação da função renal e hepática: quando indicada;
  • Pesquisa de macroprolactina: especialmente em pessoas sem sintomas compatíveis com hiperprolactinemia.

A macroprolactina é uma forma de prolactina associada a imunoglobulinas, que apresenta menor atividade biológica em muitos casos. Sua identificação ajuda a evitar interpretações equivocadas de resultados elevados em pessoas assintomáticas.

3. Ressonância magnética da hipófise

A ressonância magnética da região hipofisária pode ser indicada quando outras causas foram excluídas e persiste suspeita de uma lesão estrutural, como um prolactinoma.

O exame permite avaliar a hipófise, identificar lesões e analisar sua relação com estruturas próximas. A indicação e a interpretação devem considerar os níveis hormonais e o quadro clínico, pois nem toda lesão hipofisária associada à prolactina elevada é um prolactinoma.

Como funciona o tratamento da hiperprolactinemia?

O tratamento depende da causa, da intensidade da alteração, da presença de sintomas e da existência de lesões hipofisárias. Nem todos os casos exigem tratamento medicamentoso.

Tratamento medicamentoso

Nos casos em que há indicação de tratamento, os agonistas dopaminérgicos são utilizados para reduzir a secreção de prolactina. A cabergolina costuma ser a opção preferencial no tratamento de prolactinomas por sua eficácia na normalização hormonal e na redução tumoral. A bromocriptina também pode ser utilizada em situações específicas.

A escolha do medicamento, a dose e a duração do tratamento dependem da avaliação individual e do acompanhamento médico.

Hiperprolactinemia induzida por medicamentos

Quando há suspeita de que um medicamento seja responsável pela elevação hormonal, o profissional deve avaliar a possibilidade de ajuste, substituição ou suspensão, considerando os riscos e benefícios.

Essa decisão precisa ser discutida com o profissional que prescreveu o tratamento, sobretudo quando se trata de medicamentos psiquiátricos ou essenciais para o controle de outras doenças.

Quando a cirurgia pode ser indicada?

A cirurgia pode ser considerada em casos selecionados de prolactinoma, como resistência ou intolerância ao tratamento medicamentoso, ou quando há outras indicações clínicas específicas. A decisão depende das características do tumor, da resposta terapêutica e da avaliação especializada.

A radioterapia fica reservada a situações específicas, como alguns tumores persistentes ou agressivos que não respondem adequadamente às demais abordagens.

Como é feito o acompanhamento clínico?

O acompanhamento depende da causa da hiperprolactinemia e da resposta ao tratamento. Pode incluir dosagens periódicas de prolactina, avaliação dos sintomas e exames de imagem quando indicados.

Em pacientes com prolactinoma, o seguimento considera tanto o controle hormonal quanto a evolução da lesão. A redução ou suspensão de agonistas dopaminérgicos deve ser individualizada, com critérios clínicos, laboratoriais e radiológicos e monitoramento após a mudança terapêutica.

Cefaleia súbita ou intensa, perda ou alteração importante da visão e outros sintomas neurológicos novos exigem avaliação médica urgente, especialmente em pessoas com lesões hipofisárias conhecidas.

Referências

MEDCOF. Abordagem clínica e terapêutica da hiperprolactinemia. Ficha-resumo: Grupo MedCof, Material didático.

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Autor e Revisor

  • Kiara Adelino

    Estudante do 5° semestre de Medicina. Gosto bastante de aprender coisas novas, principalmente na área de Neurologia e Anatomia humana.

  • Isabela Marangon Pasotti

    Médica pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo | CRM: 218447Ginecologista e Obstetra pelo HC-FMUSP | RQE: 126409Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela FEBRASGO (TEGO)Fellow em Reprodução Assistida pelo HC-FMUSP

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