
Semana passada, corrigindo um simulado com uma aluna, a gente travou numa questão que parecia boba. Homem de 30 anos, esquizofrenia, em uso de clozapina, chega com febre e dor de garganta. A pergunta: qual a conduta imediata? Ela marcou “prescrever antibiótico e observar”. Errou — e errou pelo caminho mais comum do mundo.
Porque a resposta não estava na infecção. Estava na palavra “clozapina”. Aquela febre com dor de garganta, num paciente em clozapina, é agranulocitose até prova em contrário: pede hemograma AGORA. Ela sabia disso. Tinha lido. Mas na hora da prova, sob pressão, o nome do remédio não acendeu a luz certa na cabeça dela.
E é aí que eu quero chegar. Psicofarmacologia assusta porque parece um oceano de nomes, doses e efeitos colaterais. A pessoa tenta decorar tudo, não decora nada, e trava justamente na pegadinha que a banca plantou. Deixa o tio te mostrar um jeito melhor de olhar pra isso.
O filtro: cada classe tem 1 estrela e 1 armadilha
Vou te poupar meses de sofrimento com uma ideia simples: você não precisa saber tudo sobre cada psicofármaco. Pra prova, cada classe tem basicamente uma estrela — a indicação principal, o que ela resolve — e uma armadilha — o detalhe que a banca usa pra te derrubar. Se você amarrar essas duas coisas em cada classe, resolve a esmagadora maioria das questões objetivas de saúde mental do INEP.
São cinco classes que concentram quase tudo: antidepressivos ISRS, antipsicóticos atípicos, estabilizadores de humor, benzodiazepínicos e antidepressivos tricíclicos. Vou passar por cada uma. Mas antes, cola esta tabela na parede — ela é o mapa do território.
A tabela pra colar na parede
| Classe | Exemplos | ⭐ Estrela (o que ela resolve) | ⚠️ Efeitos que mais caem | 🎯 A pegadinha da banca |
|---|---|---|---|---|
| ISRS | fluoxetina, sertralina, escitalopram, paroxetina | Depressão maior (+ TOC, TAG, pânico, TEPT, bulimia) | Disfunção sexual; náusea no início; hiponatremia no idoso | Fluoxetina = a de escolha na criança (liberada desde os 8 anos); ISRS + IMAO/tramadol = síndrome serotoninérgica; paroxetina = pior descontinuação |
| Estabilizadores de humor | lítio, valproato, carbamazepina, lamotrigina | Transtorno bipolar (lítio é 1ª linha) | Lítio: tremor, poliúria, hipotireoidismo, intoxicação | AINE + diurético + IECA SOBEM o lítio → intoxicação; valproato contraindicado na gravidez; lamotrigina = Stevens-Johnson (titula devagar) e é da fase depressiva, não da mania |
| Antipsicóticos atípicos | risperidona, olanzapina, quetiapina, clozapina | Esquizofrenia | Síndrome metabólica (olanzapina/clozapina); hiperprolactinemia (risperidona) | Clozapina = hemograma seriado (agranulocitose); atípico faz MENOS efeito extrapiramidal que o típico, mas MAIS metabólico |
| Benzodiazepínicos | diazepam, clonazepam, lorazepam, midazolam | Ansiedade/agitação aguda | Dependência, sedação, depressão respiratória, amnésia anterógrada | Antídoto = flumazenil; BZD NÃO é antidepressivo (erro clássico); lorazepam é o preferido no hepatopata |
| Tricíclicos | amitriptilina, imipramina, clomipramina, nortriptilina | Depressão refratária, dor neuropática | Anticolinérgicos; cardiotoxicidade (QT/QRS); LETAIS em overdose | Overdose → alarga o QRS → bicarbonato de sódio; imipramina = enurese noturna; clomipramina = TOC |
Agora vamos descer em cada uma. Presta atenção no par estrela/armadilha — é ele que fica.
1) ISRS: o feijão com arroz da psiquiatria
Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina são a primeira linha da depressão maior, e não é à toa: eficácia boa e, principalmente, segurança muito maior que a dos antigos [1]. Mas não param na depressão. A mesma classe cobre transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, TEPT e — no caso específico da fluoxetina — bulimia nervosa. Quando o enunciado te der um quadro ansioso ou obsessivo e perguntar o tratamento de primeira linha, o reflexo é ISRS.
⭐ A estrela: depressão maior. Guarda isso como âncora.
⚠️ O efeito que mais cai: disfunção sexual. É dos efeitos adversos mais comuns e mais persistentes da classe, chegando a afetar mais da metade dos pacientes em algumas séries [7]. A banca adora porque é a causa nº 1 de abandono do tratamento na vida real. Some a isso a náusea no começo (que costuma passar) e a hiponatremia no idoso, por secreção inapropriada de ADH — um clássico de prova de geriatria [8].
🎯 As armadilhas: aqui moram três.
A primeira é a pediátrica. Existe uma meia-verdade circulando de que “fluoxetina é o único ISRS liberado pra criança”. O correto: a fluoxetina é a de escolha e a única aprovada a partir dos 8 anos para depressão, além de ter a melhor evidência [3]. Mas o escitalopram também é aprovado para depressão em adolescentes, dos 12 aos 17 [4]. Então, se a banca perguntar “qual o ISRS de escolha na criança pequena”, é fluoxetina. Se disser “único de todos”, desconfia.
A segunda é a síndrome serotoninérgica — e essa é grande. É um quadro potencialmente fatal de excesso de serotonina, com a tríade de alteração do estado mental, hiperatividade autonômica (febre, taquicardia, sudorese) e alterações neuromusculares (clônus, hiperreflexia, rigidez) [2]. Ela aparece quando você soma serotoninérgicos: ISRS + IMAO é a combinação proibida clássica (precisa de washout de 14 dias, e de 5 semanas se o ISRS for fluoxetina, pela meia-vida longa) [2]. Mas cai também ISRS + tramadol, + triptano, + linezolida. Vou me aprofundar nisso semana que vem, porque rende.
A terceira é a descontinuação. Não se suspende ISRS de uma vez — dá síndrome de descontinuação (tontura, “choques”, sintomas gripais, irritabilidade). E aqui tem hierarquia que a banca cobra: a paroxetina é a campeã de descontinuação, por ter meia-vida curta e efeito anticolinérgico; a fluoxetina é a mais tranquila, porque a meia-vida longa dela e do metabólito ativo fazem um desmame natural [5][6]. Ou seja: o mesmo detalhe (meia-vida) explica duas pegadinhas opostas.
2) Estabilizadores de humor: onde mora o lítio
Se a estrela da classe fosse uma pessoa, seria o lítio. No transtorno bipolar, o lítio é primeira linha tanto na mania aguda quanto na manutenção, e tem uma propriedade que nenhum outro divide de forma tão robusta: reduz o risco de suicídio [9][10]. Isso cai. Valproato entra forte na mania e na ciclagem rápida; carbamazepina é opção; lamotrigina tem um papel próprio — já chego nela.
⭐ A estrela: transtorno bipolar, com o lítio na frente.
⚠️ A armadilha central do lítio é a janela terapêutica estreita. A faixa de manutenção fica em torno de 0,6 a 1,2 mEq/L, e acima de ~1,5 já se fala em toxicidade [11]. Ou seja, a distância entre a dose que trata e a dose que intoxica é pequena — por isso se monitora litemia periodicamente. A intoxicação começa com tremor grosseiro, náusea, ataxia, e evolui para confusão, convulsão e arritmia. E, a longo prazo, o lítio cobra seu preço: hipotireoidismo, poliúria por diabetes insípido nefrogênico (ele “quebra” a resposta renal ao ADH) e tremor fino [11]. São exatamente os efeitos que o INEP cita na “cauda” das questões.
🎯 A pegadinha de ouro: o que faz o lítio intoxicar não é só a dose — são as interações. AINEs, diuréticos tiazídicos e IECA/BRA reduzem a excreção renal do lítio e elevam a litemia [12]. Traduzindo pra clínica: aquele paciente bipolar estável que começou um anti-inflamatório pra dor no joelho e voltou confuso e trêmulo não está tendo um surto — está intoxicado. Esse é o tipo de raciocínio que separa quem decorou de quem entendeu.
E a lamotrigina merece um parágrafo só dela, porque concentra duas pegadinhas. Primeira: ela é o estabilizador da fase depressiva do bipolar e da manutenção — não funciona pra mania aguda [9]. Se a questão traz um paciente em mania franca e oferece lamotrigina, é pegadinha. Segunda: a lamotrigina exige titulação lenta por causa do risco de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica — reações cutâneas graves que aparecem justamente quando se sobe a dose rápido demais [14]. Em compensação, ela é a mais amigável do grupo em peso e a de melhor perfil relativo na gestação. Compare com o valproato, que é o vilão da gravidez: teratogênico clássico, associado a defeitos do tubo neural, incluindo espinha bífida — evita-se em mulheres em idade fértil sempre que possível [13].
3) Antipsicóticos atípicos: o preço é metabólico
A estrela dos antipsicóticos atípicos (ou de segunda geração) é a esquizofrenia. A grande vantagem deles sobre os típicos, tipo o haloperidol, é fazer menos sintomas extrapiramidais — menos distonia aguda, menos parkinsonismo, menos aquela rigidez que estigmatiza. O problema é que a conta não desaparece; ela só muda de lugar.
⭐ A estrela: esquizofrenia.
⚠️ A armadilha da classe é a síndrome metabólica. Ganho de peso, dislipidemia, resistência insulínica, diabetes. E há uma hierarquia clara: olanzapina e clozapina são as piores nesse quesito; risperidona e quetiapina ficam no meio; aripiprazol e ziprasidona são mais leves [15]. Guarda a frase-resumo: o atípico troca o efeito extrapiramidal do típico pelo efeito metabólico. Menos tremor, mais barriga [16].
🎯 As pegadinhas específicas:
Clozapina. É o antipsicótico mais eficaz que existe para esquizofrenia refratária — e, ao mesmo tempo, o mais perigoso, porque causa agranulocitose (queda grave dos neutrófilos) numa fração dos pacientes. Por isso ela é reservada para casos que não responderam a dois outros antipsicóticos, e exige monitorização seriada de hemograma [17]. Volta lá no caso da minha aluna: febre + dor de garganta + clozapina = hemograma imediato. Não é sobre a infecção; é sobre a medula.
Risperidona. É a atípica que mais eleva prolactina — pode dar galactorreia, amenorreia, ginecomastia — e faz efeito extrapiramidal de forma dose-dependente [18]. Ou seja, em dose alta ela começa a se comportar um pouco como um típico.
4) Benzodiazepínicos: alívio rápido, conta que chega
Benzodiazepínico é o bombeiro da psiquiatria: apaga o incêndio agudo rápido. A estrela dele é a ansiedade e a agitação agudas, mas ele também cobre insônia de curto prazo, sedação pré-procedimento, epilepsia (clonazepam) e — importante — a abstinência alcoólica, onde é primeira linha para prevenir convulsão e delirium tremens [19][20].
⭐ A estrela: ansiedade/agitação aguda (e a abstinência alcoólica, que cai).
⚠️ A armadilha é a dependência. Tolerância, dependência física, sedação excessiva, depressão respiratória (sobretudo se misturado com álcool ou opioide) e amnésia anterógrada. E a retirada abrupta cobra caro: síndrome de abstinência com ansiedade rebote, insônia e risco de convulsão [19]. Por isso não se suspende BZD do dia pra noite — desmama.
🎯 As pegadinhas:
O antídoto é o flumazenil, um antagonista específico do receptor. Só cuidado com a ressalva que a banca mais esperta cobra: em usuário crônico ou em intoxicação mista, o flumazenil pode precipitar convulsão — não é um “resetar” inofensivo [21].
Segundo erro clássico: benzodiazepínico não é antidepressivo. Parece óbvio, mas a banca monta a alternativa esperando que você associe “ansiedade → BZD → antidepressivo”. Não. São classes farmacológicas distintas; BZD é modulador do GABA, não mexe na recaptação de serotonina.
E um detalhe que vira questão de hepatologia: no paciente com doença hepática, prefira lorazepam (ou oxazepam/temazepam). Eles são metabolizados por glicuronidação direta, sem depender das enzimas de fase I do fígado, então acumulam menos no hepatopata [22].
5) Tricíclicos: potentes e perigosos
Os tricíclicos são os antidepressivos antigos, e caíram para segunda ou terceira linha na depressão justamente porque são mais tóxicos que os ISRS. Mas não sumiram — continuam úteis, e por isso continuam caindo. Brilham na dor neuropática, na profilaxia de enxaqueca (amitriptilina) [26], no TOC quando o ISRS falha (clomipramina, a mais serotoninérgica) [28] e na enurese noturna infantil (imipramina) [25].
⭐ A estrela: depressão refratária e dor neuropática.
⚠️ A armadilha é dupla: anticolinérgico e cardiotóxico. Boca seca, retenção urinária, constipação, visão turva, confusão no idoso — o pacote anticolinérgico completo. E, mais grave, cardiotoxicidade: prolongam o intervalo QT e, em dose tóxica, alargam o QRS [23]. É por isso que eles são letais em superdosagem — um detalhe com peso clínico e ético enorme, porque um paciente deprimido com ideação e um vidro de tricíclico em casa é uma combinação de risco.
🎯 A pegadinha de emergência: na intoxicação por tricíclico, a tríade clássica é cardiotoxicidade (QRS largo, arritmia), convulsão e coma. E a conduta que a banca quer ouvir para a toxicidade cardíaca / alargamento do QRS é bicarbonato de sódio [24]. Ele alcaliniza o sangue e fornece sódio, revertendo o bloqueio dos canais de sódio cardíacos que o tricíclico causa. Guarda esse gatilho: QRS alargado por tricíclico → bicarbonato.
Um adendo pediátrico, porque também cai: a imipramina foi por décadas a “droga da enurese noturna”. Hoje ela é segunda ou terceira linha — depois do alarme de enurese e da desmopressina — exatamente pela cardiotoxicidade [25]. Mas o vínculo imipramina ↔ enurese continua sendo a associação que a prova cobra.
O padrão que amarra tudo
Volta na tabela e repara: em toda linha, o que derruba o aluno não é a estrela — é a armadilha. A banca raramente pergunta “para que serve o lítio”. Ela pergunta o que acontece quando você soma um anti-inflamatório, ou por que a clozapina exige hemograma, ou qual antídoto usar. O detalhe, não o conceito.
Semana que vem eu volto e a gente desce fundo nas síndromes associadas às medicações — a síndrome serotoninérgica, a síndrome neuroléptica maligna, a distonia aguda, as intoxicações específicas. É a continuação natural disso aqui, e é onde as emergências psiquiátricas encontram a farmacologia.
Por ora, leva o filtro: cinco classes, uma estrela e uma armadilha cada. Não é sobre saber mais psicofarmacologia que todo mundo. É sobre saber a parte certa — a que cai. Porque, no fim, “quase acertei” não vira residente.
Continue saindo do lugar-comum.
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